É verdade que, assim como todo mundo, eu tava com muita vontade de ver Avatar. Isso porque gosto bastante do James Cameron (sou bem fã de O Exterminador do Futuro, tanto o 1 quanto o 2, idem pra Titanic. Aprecio até Aliens, a sequência do filme do Ridley Scott que ele dirigiu). E essa era a grande
volta do cara, que já estava sem filmar há 12 anos, sendo que seu último projeto foi Titanic. Vejam bem: 12 anos, e a última coisa que ele fez foi um dos maiores campeões de bilheteria de todos os tempos. Se fosse eu, teria sentido uma certa pressãozinha. Mas o “rei do mundo” sabe o que faz, não há dúvidas, e Avatar vem recebendo uma coleção de elogios de tudo quanto é lado. Os críticos andam babando pelo filme. Se bem que eles não conseguem falar de outra coisa além dos efeitos especiais de última geração e tal. Bom, eu não entendo nada dessas coisas (sou o herege que acha os efeitos de Os Caçadores da Arca Perdida bem superiores aos de O Reino da Caveira de Cristal), mas adorei a produção. E olha que efeitos especiais, por mais bem feitos que forem, não são o suficiente pra manter meu bumbum parado por duas horas e meia sem que ele me mande uma mensagem de “SOS, estou quadrado”. Pois bem, a boa notícia é que as quase três horas de Avatar passaram num instante, e eu lhes gara
nto que não foi pela lágrima gerada por computador ou pela plantinha que se mexe. Avatar é mais do que visual.
rio: o protagonista é um militar paraplégico. Ah, sim, é relevante saber que a trama se passa num futuro indefinido, onde um novo planeta habitado, Pandora, é descoberto. O tal militar é mandado em uma missão ao planeta, cujo objetivo é conhecer e ficar, digamos, mais íntimo dos habitantes de lá. Uns seres azuis com cultura própria, bastante parecida com a indígena, que se chamam (eu anotei) Na’Vi. Só que pra embarcar na missão ele tem que trocar de corpo, e meio que se transforma num Na’Vi. É realmente muito legal que o James Cameron tenha, literalmente, criado um mundo novinho. E uma cultura
nova. Porque, acreditem se quiser, os extraterrestres não falam inglês! Claro, alguns falam, mas há uma desculpa bem razoável pra isso: é que os seres civilizados (nós?) vão ensinar os selvagens a dialogarem feito gente. Resumindo: não basta pros americanos dominar o planeta terra. Pra quê se contentar com tão pouco, quando se pode ir além, né? As mensagens de Avatar são várias. A mais óbvia é a ecológica. Mas, sabem, não me senti uma criança de 4 anos ouvindo pela primeira vez que destruir uma plantinha ou matar um animalzinho é feio, mal, ai ai ai. A mensagem, dessa vez, me tocou. Tanto que uma cena quase me fez chorar. Ahn, como posso explicar? A cena em que uma árvore é derrubada. E vocês sabem que me fazer (quase) chorar por um efeito especial é façanha pra poucos. A lição a favor do meio ambiente não soa panfletária e nem didática. E nem tão piegas, juro. Talvez seja porque ela não está sozinha. O discurso ecológico até certo ponto sutil vem embalado de outras m
ensagens mais corajosas. Dá muito bem pra gente comparar a trama da civilização invadindo o novo mundo selvagem com a época das colonizações, né? Só que a ligação pode ser ainda mais atual. Dá pra gente comparar os americanos futuristas invadindo Pandora em busca de um minério hiper caro com a guerra do Iraque. A desculpa é a mesma ladainha: estamos invadindo antes que eles nos invadam. É uma guerra pela paz, não sabiam? Um dos personagens do filme até diz algo como “usar o terror contra o terror”. Oi? Soa familiar pra vocês também?
o sentido generalizado da palavra, aquele que serve pra descrever toda a espécie humana. Não. Homem aquele com H maiúsculo, os machos. O que não me surpreende, vindo do James Cameron. Uma das coisas que mais gosto em seus filmes são suas personagens femininas fortíssimas, muito marcantes. Por exemplo, a Sarah Connor da Linda Hamilton começa o primeiro Exterminador do Futuro como uma mocinha das mais indefesas. E ela termina como uma heroína. No segundo filme, antes de salvar o mundo, ela tem que convencer uma porção de homens de que não está louca. Ela é internada num hospício, mas logo, logo dá um jeito de sair de lá, no melhor estilo power girl. É assim também em Aliens. A Ripley da Sigourney Weaver (que também está no elenco de Avatar) tem o com
ando, ela tem a força. Uma das melhores cenas acontece quando ela utiliza uma máquina futurista com incrível desempenho, levando todos os machos do recinto a ficarem de queixo caído (como assim, uma mulher fazendo isso?). E, nem preciso dizer, o personagem de personalidade mais forte de Titanic não é o do Leonardo DiCaprio, mas o da Kate Winslet. São quantos personagens femininos marcantes mesmo? Avatar não foge à regra. Seria mais simples e menos corajoso se o James Cameron ouvisse a voz da maioria, e mostrasse homens e mulheres na mesma posição frente às guerras e às armas. Mas ele sabe que tem diferença, e não tem medo de mostrar isso. O mundo de Pandora é comandado por um homem e uma mulher, espécies de rei e rainha. O tal rei tem umas três falas, nenhuma delas muito útil ou direita. Enquanto isso, a rainha é muito mais coerent
e e inteligente, e ela tem um papel muito mais importante. Na real, é ela que comanda o planeta. Enquanto no lado dos humanos, todos os militares enviados em missão são homens. Quer dizer, há duas mulheres, mas não demora muito pra elas mudarem de lado, pro lado mais humano, digo, mais, ahn... selvagem (?). Uma dessas humanas é vivida pela Michelle Rodriguez, de Lost, e ela não deixa a dever às outras super-mulheres do James Cameron. Aqui sua personagem também tem que passar por cima de um monte de marmanjo pra conseguir chegar a seu intuito verdadeiramente pacifista. E é legal que os homens de Pand
ora também sejam diferente das mulheres, nesse aspecto. Eles são, no fundo, bem parecidos com os machos humanos. Ambos os lados masculinos só pensam em guerra como solução plausível, daqueles que batem no peito quando ganham uma batalha. Há uma cena muito boa. Primeiro, vemos a estação dos humanos, onde vários homens decidem que é hora de atacar, enquanto a única mulher lá presente tenta os impedir. Na sequência já vamos pra reunião dos Na’vi, onde os machos parecem ser bastante a favor de um contra-ataqu
e, assim, sem nem pensar. O lado inteligente e são também vem das mulheres, da rainha e de sua filha. Essa última, então, nem se fala... É a personagem mais decidida do filme, a mais forte (em vários sentidos), a de maior personalidade. E, no fim, não é o mocinho que salva a mocinha e a carrega em seus braços, mas exatamente o contrário. O James Cameron não é nenhum pouco sutil (e precisa?) nessa mensagem: o problema do planeta não é exatamente a “raça humana”, no geral, mas sim um grupinho muito específico. É óbvio que os críticos, quase todos homens, tentam ignorar isso o máximo que podem. Dane-se que a voz ativa das mulheres salve o planeta da guerra dos machos. E viva a lágrima gerada por computador.
u isso algumas vezes, né? Mas eu nem liguei (ler parágrafo acima). Me manter de olhos arregalados, assim, sem piscar, numa cena monumental de ação, é coisa rara. O que me faz lembrar da vez em que fui ao cinema ver Transformers 2. Teve uma hora em que eu desliguei meu cérebro, coloquei-o totalmente em off, porque, juro, cansei de tentar entender o que estava acontecendo. Aquilo é o pé do robô ou é o cotovelo?, questionava o desesperado Luciano ao seu amigo, como se fosse adiantar alguma coisa conhecer qual parte da anatomi
a robótica estava se explodindo. Então, enquanto em Transformers eu entrei em coma permanente e virei um vegetal diante de tanto efeito especial, em Avatar eu realmente torcia pelos protagonistas. De verdade, ninguém sabe usar os efeitos especiais tão bem a favor da história como o James Cameron. Ele é realmente o senhor da ação, e isso tem muito mais a ver com talento do que com orçamentos equivalentes ao cofrinho do Bill Gates. Imagine a mesma equipe de efeitos especiais e a mesma grana nas mãos de um Michael Bay. Eu sei, bate da madeira, três pulinhos. O Cameron não deixa o nosso cérebro entrar em off porque as batalhas e as cenas de ação sempre vem acompa
nhadas do arco dramático. Mesmo que fraquinho, às vezes, ele existe, e é suficiente pra nos fazer torcer. Há várias batalhas sendo travadas em vários pontos diferentes, no grand finale. Algumas no céu, outras em terra firme... Os pontos positivos começam pelo fato de que tudo é muito bem iluminado, sem contar que a câmera é bastante calma, ela não participa da ação. Nada de tremedeira. A gente consegue distinguir onde estão os nossos heróis, e podemos ver tudo o que está acontecendo claramente. E existe até algum suspense no meio do embate gigantesco. Ele sabe muito bem a hora e como incluir cenas de ação. O Exterminador do Futuro 2, por exemplo, foi um dos filmes mais revolucionários até aquele 1991, em se tr
atando de tecnologia por trás de efeitos especiais. Foi uma superprodução cara, com efeitos avançadíssimos, o escambal. Mas o filme não deixa de ser muito inteligente, de fazer pensar um pouquinho. Estão falando que esse Avatar tem muitas chances de superar, ou de, no mínimo, chegar perto da dinheirama que Titanic fez. E pensar que o filme que abriu as portas pra ele foi uma produção baratinha, até pros padrões da época: Exterminador 1. Adivinhem qual filme ele fez antes do estouro de Terminator. Piranhas... dois. Sr. Cameron, seu passado te condena (condena nada, que ele merece nosso respeito).Sabem outra opção muito da acertada? A de criar um laço de afeto bastante forte entre o público e a terra de Pandora, ant
es da destruição e do quebra pau. Na primeira parte do filme vemos como é a relação daquele estranho povo com a sua terra. Eles são literalmente ligados à Pandora. E, de novo, entra aquela habilidade do Cameron em usar os efeitos especiais melhor do que ninguém. Nosso queixo cai diante da beleza do planeta. Tudo bastante colorido e cheio de detalhes, além das luzes. Pensem comigo: se o troço foi todo criado por computador, o James Cameron podia criar o que ele quisesse, certo? Pois é, ele realmente deixa que sua imaginação o le
ve. A maior crítica que alguns fazem ao Hayao Miyazaki (diretor japonês de A Viagem de Chihiro e Meu Vizinho Totoro, entre outros) é que seus filmes são viajados demais. Ahn, mas ele faz animações, poxa, e isso lhe permite criar o que ele quiser. Pra que ficar no óbvio, pra que desenhar animaizinhos falantes, quando se tem um mundo de possibilidades (mesmo que um mundo irreal)? Como nos deslumbramos com Pandora na primeira parte da obra, sentimos o baque na hora em que ela está sendo destruída (o que pode justificar minhas quase lágrimas quando uma espécie de árvore-mãe vem abaixo). A diferença é clara: a beleza e as cores do planeta na primeira met
ade; a fumaça, as explosões e a barulheira de armas na segunda. A gente sai do cinema querendo que todas as armas do mundo morram. Uma das mensagens é mais ou menos assim: como acrescentar algo no copo de alguém, sendo que esse alguém acha que já está com o seu copo todo cheio? Se refere a nós (homens), que achamos que já sabemos tudo, que estamos acima do bem e do mal, que somos os civilizados. Os reis do mundo? Avatar é o tipo de filme que faz o homem sair mal na foto. Mas que, no mínimo, nos faz querer dar um jeitinho nessa imagem, pro nosso filme não queimar de vez. 














































































































































































































Hoje vou falar sobre Má Educação, que, sem brincadeira, é um dos melhores produtos cinematográficos dos últimos anos. Quiçá da década. Não ouso comparar nenhum dos filmes do Almodóvar, prin























































