domingo, 20 de dezembro de 2009

AVATAR – Bem-vindo de volta, king of the world

É verdade que, assim como todo mundo, eu tava com muita vontade de ver Avatar. Isso porque gosto bastante do James Cameron (sou bem fã de O Exterminador do Futuro, tanto o 1 quanto o 2, idem pra Titanic. Aprecio até Aliens, a sequência do filme do Ridley Scott que ele dirigiu). E essa era a grande volta do cara, que já estava sem filmar há 12 anos, sendo que seu último projeto foi Titanic. Vejam bem: 12 anos, e a última coisa que ele fez foi um dos maiores campeões de bilheteria de todos os tempos. Se fosse eu, teria sentido uma certa pressãozinha. Mas o “rei do mundo” sabe o que faz, não há dúvidas, e Avatar vem recebendo uma coleção de elogios de tudo quanto é lado. Os críticos andam babando pelo filme. Se bem que eles não conseguem falar de outra coisa além dos efeitos especiais de última geração e tal. Bom, eu não entendo nada dessas coisas (sou o herege que acha os efeitos de Os Caçadores da Arca Perdida bem superiores aos de O Reino da Caveira de Cristal), mas adorei a produção. E olha que efeitos especiais, por mais bem feitos que forem, não são o suficiente pra manter meu bumbum parado por duas horas e meia sem que ele me mande uma mensagem de “SOS, estou quadrado”. Pois bem, a boa notícia é que as quase três horas de Avatar passaram num instante, e eu lhes garanto que não foi pela lágrima gerada por computador ou pela plantinha que se mexe. Avatar é mais do que visual.

Começa pelo fato do filme se iniciar de cara. Se tem uma coisa que eu não suporto nesses épicos é que eles sempre travam no começo com aquelas explicações desnecessárias. Esqueça os monólogos científicos intermináveis feitos pra alavancar a trama. James Cameron conhece nossas aspirações, ele bem sabe que a gente quer ir logo pros finalmentes. E isso inclui o desenvolvimento do personagem principal. Não, aqui nós não vamos conhecer cada detalhe do passado do protagonista, não teremos nenhum parâmetro de sua relação conturbada com os filhinhos, nada. Por quê? Porque deus é grande, ué. Sabemos apenas o necessário: o protagonista é um militar paraplégico. Ah, sim, é relevante saber que a trama se passa num futuro indefinido, onde um novo planeta habitado, Pandora, é descoberto. O tal militar é mandado em uma missão ao planeta, cujo objetivo é conhecer e ficar, digamos, mais íntimo dos habitantes de lá. Uns seres azuis com cultura própria, bastante parecida com a indígena, que se chamam (eu anotei) Na’Vi. Só que pra embarcar na missão ele tem que trocar de corpo, e meio que se transforma num Na’Vi. É realmente muito legal que o James Cameron tenha, literalmente, criado um mundo novinho. E uma cultura nova. Porque, acreditem se quiser, os extraterrestres não falam inglês! Claro, alguns falam, mas há uma desculpa bem razoável pra isso: é que os seres civilizados (nós?) vão ensinar os selvagens a dialogarem feito gente. Resumindo: não basta pros americanos dominar o planeta terra. Pra quê se contentar com tão pouco, quando se pode ir além, né? As mensagens de Avatar são várias. A mais óbvia é a ecológica. Mas, sabem, não me senti uma criança de 4 anos ouvindo pela primeira vez que destruir uma plantinha ou matar um animalzinho é feio, mal, ai ai ai. A mensagem, dessa vez, me tocou. Tanto que uma cena quase me fez chorar. Ahn, como posso explicar? A cena em que uma árvore é derrubada. E vocês sabem que me fazer (quase) chorar por um efeito especial é façanha pra poucos. A lição a favor do meio ambiente não soa panfletária e nem didática. E nem tão piegas, juro. Talvez seja porque ela não está sozinha. O discurso ecológico até certo ponto sutil vem embalado de outras mensagens mais corajosas. Dá muito bem pra gente comparar a trama da civilização invadindo o novo mundo selvagem com a época das colonizações, né? Só que a ligação pode ser ainda mais atual. Dá pra gente comparar os americanos futuristas invadindo Pandora em busca de um minério hiper caro com a guerra do Iraque. A desculpa é a mesma ladainha: estamos invadindo antes que eles nos invadam. É uma guerra pela paz, não sabiam? Um dos personagens do filme até diz algo como “usar o terror contra o terror”. Oi? Soa familiar pra vocês também?

E o filme é muito honesto ao mostrar o verdadeiro mal do universo: o homem. Não no sentido generalizado da palavra, aquele que serve pra descrever toda a espécie humana. Não. Homem aquele com H maiúsculo, os machos. O que não me surpreende, vindo do James Cameron. Uma das coisas que mais gosto em seus filmes são suas personagens femininas fortíssimas, muito marcantes. Por exemplo, a Sarah Connor da Linda Hamilton começa o primeiro Exterminador do Futuro como uma mocinha das mais indefesas. E ela termina como uma heroína. No segundo filme, antes de salvar o mundo, ela tem que convencer uma porção de homens de que não está louca. Ela é internada num hospício, mas logo, logo dá um jeito de sair de lá, no melhor estilo power girl. É assim também em Aliens. A Ripley da Sigourney Weaver (que também está no elenco de Avatar) tem o comando, ela tem a força. Uma das melhores cenas acontece quando ela utiliza uma máquina futurista com incrível desempenho, levando todos os machos do recinto a ficarem de queixo caído (como assim, uma mulher fazendo isso?). E, nem preciso dizer, o personagem de personalidade mais forte de Titanic não é o do Leonardo DiCaprio, mas o da Kate Winslet. São quantos personagens femininos marcantes mesmo? Avatar não foge à regra. Seria mais simples e menos corajoso se o James Cameron ouvisse a voz da maioria, e mostrasse homens e mulheres na mesma posição frente às guerras e às armas. Mas ele sabe que tem diferença, e não tem medo de mostrar isso. O mundo de Pandora é comandado por um homem e uma mulher, espécies de rei e rainha. O tal rei tem umas três falas, nenhuma delas muito útil ou direita. Enquanto isso, a rainha é muito mais coerente e inteligente, e ela tem um papel muito mais importante. Na real, é ela que comanda o planeta. Enquanto no lado dos humanos, todos os militares enviados em missão são homens. Quer dizer, há duas mulheres, mas não demora muito pra elas mudarem de lado, pro lado mais humano, digo, mais, ahn... selvagem (?). Uma dessas humanas é vivida pela Michelle Rodriguez, de Lost, e ela não deixa a dever às outras super-mulheres do James Cameron. Aqui sua personagem também tem que passar por cima de um monte de marmanjo pra conseguir chegar a seu intuito verdadeiramente pacifista. E é legal que os homens de Pandora também sejam diferente das mulheres, nesse aspecto. Eles são, no fundo, bem parecidos com os machos humanos. Ambos os lados masculinos só pensam em guerra como solução plausível, daqueles que batem no peito quando ganham uma batalha. Há uma cena muito boa. Primeiro, vemos a estação dos humanos, onde vários homens decidem que é hora de atacar, enquanto a única mulher lá presente tenta os impedir. Na sequência já vamos pra reunião dos Na’vi, onde os machos parecem ser bastante a favor de um contra-ataque, assim, sem nem pensar. O lado inteligente e são também vem das mulheres, da rainha e de sua filha. Essa última, então, nem se fala... É a personagem mais decidida do filme, a mais forte (em vários sentidos), a de maior personalidade. E, no fim, não é o mocinho que salva a mocinha e a carrega em seus braços, mas exatamente o contrário. O James Cameron não é nenhum pouco sutil (e precisa?) nessa mensagem: o problema do planeta não é exatamente a “raça humana”, no geral, mas sim um grupinho muito específico. É óbvio que os críticos, quase todos homens, tentam ignorar isso o máximo que podem. Dane-se que a voz ativa das mulheres salve o planeta da guerra dos machos. E viva a lágrima gerada por computador.

O roteiro tem lá seus clichês, e é bem esquemático. Homem do lado mau que troca de time ao se apaixonar? A gente já viu isso algumas vezes, né? Mas eu nem liguei (ler parágrafo acima). Me manter de olhos arregalados, assim, sem piscar, numa cena monumental de ação, é coisa rara. O que me faz lembrar da vez em que fui ao cinema ver Transformers 2. Teve uma hora em que eu desliguei meu cérebro, coloquei-o totalmente em off, porque, juro, cansei de tentar entender o que estava acontecendo. Aquilo é o pé do robô ou é o cotovelo?, questionava o desesperado Luciano ao seu amigo, como se fosse adiantar alguma coisa conhecer qual parte da anatomia robótica estava se explodindo. Então, enquanto em Transformers eu entrei em coma permanente e virei um vegetal diante de tanto efeito especial, em Avatar eu realmente torcia pelos protagonistas. De verdade, ninguém sabe usar os efeitos especiais tão bem a favor da história como o James Cameron. Ele é realmente o senhor da ação, e isso tem muito mais a ver com talento do que com orçamentos equivalentes ao cofrinho do Bill Gates. Imagine a mesma equipe de efeitos especiais e a mesma grana nas mãos de um Michael Bay. Eu sei, bate da madeira, três pulinhos. O Cameron não deixa o nosso cérebro entrar em off porque as batalhas e as cenas de ação sempre vem acompanhadas do arco dramático. Mesmo que fraquinho, às vezes, ele existe, e é suficiente pra nos fazer torcer. Há várias batalhas sendo travadas em vários pontos diferentes, no grand finale. Algumas no céu, outras em terra firme... Os pontos positivos começam pelo fato de que tudo é muito bem iluminado, sem contar que a câmera é bastante calma, ela não participa da ação. Nada de tremedeira. A gente consegue distinguir onde estão os nossos heróis, e podemos ver tudo o que está acontecendo claramente. E existe até algum suspense no meio do embate gigantesco. Ele sabe muito bem a hora e como incluir cenas de ação. O Exterminador do Futuro 2, por exemplo, foi um dos filmes mais revolucionários até aquele 1991, em se tratando de tecnologia por trás de efeitos especiais. Foi uma superprodução cara, com efeitos avançadíssimos, o escambal. Mas o filme não deixa de ser muito inteligente, de fazer pensar um pouquinho. Estão falando que esse Avatar tem muitas chances de superar, ou de, no mínimo, chegar perto da dinheirama que Titanic fez. E pensar que o filme que abriu as portas pra ele foi uma produção baratinha, até pros padrões da época: Exterminador 1. Adivinhem qual filme ele fez antes do estouro de Terminator. Piranhas... dois. Sr. Cameron, seu passado te condena (condena nada, que ele merece nosso respeito).

Sabem outra opção muito da acertada? A de criar um laço de afeto bastante forte entre o público e a terra de Pandora, antes da destruição e do quebra pau. Na primeira parte do filme vemos como é a relação daquele estranho povo com a sua terra. Eles são literalmente ligados à Pandora. E, de novo, entra aquela habilidade do Cameron em usar os efeitos especiais melhor do que ninguém. Nosso queixo cai diante da beleza do planeta. Tudo bastante colorido e cheio de detalhes, além das luzes. Pensem comigo: se o troço foi todo criado por computador, o James Cameron podia criar o que ele quisesse, certo? Pois é, ele realmente deixa que sua imaginação o leve. A maior crítica que alguns fazem ao Hayao Miyazaki (diretor japonês de A Viagem de Chihiro e Meu Vizinho Totoro, entre outros) é que seus filmes são viajados demais. Ahn, mas ele faz animações, poxa, e isso lhe permite criar o que ele quiser. Pra que ficar no óbvio, pra que desenhar animaizinhos falantes, quando se tem um mundo de possibilidades (mesmo que um mundo irreal)? Como nos deslumbramos com Pandora na primeira parte da obra, sentimos o baque na hora em que ela está sendo destruída (o que pode justificar minhas quase lágrimas quando uma espécie de árvore-mãe vem abaixo). A diferença é clara: a beleza e as cores do planeta na primeira metade; a fumaça, as explosões e a barulheira de armas na segunda. A gente sai do cinema querendo que todas as armas do mundo morram. Uma das mensagens é mais ou menos assim: como acrescentar algo no copo de alguém, sendo que esse alguém acha que já está com o seu copo todo cheio? Se refere a nós (homens), que achamos que já sabemos tudo, que estamos acima do bem e do mal, que somos os civilizados. Os reis do mundo? Avatar é o tipo de filme que faz o homem sair mal na foto. Mas que, no mínimo, nos faz querer dar um jeitinho nessa imagem, pro nosso filme não queimar de vez.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A PRINCESA E O SAPO – Aplicando as fórmulas clássicas aos novos tempos

Nova princesa em vários sentidos

Como eu cresci vendo os clássicos da Disney, e como tava todo mundo falando que A Princesa e o Sapo seria a grande volta da empresa do ratinho (que meu irmão descobriu esses dias que era um rato – pra ele o Mickey ta mais pra urso, talvez coelho, mas, rato? Eu não falo nada, porque até hoje não sei direito o que eram aqueles bichinhos de A Era do Gelo) ao estilo clássico princesa/príncipe/felizes para sempre, fui conferir. E também porque eu fui ao cinema com meus dois irmãos, que eu sempre incentivei a ver meus VHS piratas sabe-deus de quantos anos dos velhos clássicos animados. Então lá fomos nós, e sinto ter que lhes dizer que eu gostei, mas não muito. Meus irmãos gostaram bem mais do que eu. Talvez o problema seja o seguinte: eu cresci. Mas, pô, esses dias mesmo tava revendo com meu irmãozinho de 9 anos A Bela e a Fera, meu favorito, e ainda assim o filme me encanta, me faz rir, tudo igualzinho a quando eu tinha a idade dele. A Princesa e o Sapo até dá uma sensação nostálgica e tal, mas (vamos encher a boca para o clichê) faltou a magia. To sendo injusto, que a animação ta longe de ser ruim. Ainda mais se a gente pensar nas bombas em animação computadorizada que a Disney vinha lançando (sem contar as maravilhas que ela fez em parceria com a Pixar). Digamos que se for pra ver O Galinho Chicken Little uma segunda vez, eu prefiro beijar um sapo.
Não acredito que escrevi a frase anterior. Ok, então... A história é sobre uma garçonete que sonha em abrir um restaurante em Nova Orleans, sonho este que já era do pai antes dele morrer. E ela trabalha pacas pra isso, juntando cada centavo. Ah, ta aqui a primeira diferença entre esse novo filme e os clássicos jurássicos da Disney. Aqui o dinheiro existe, há uma preocupação financeira. Quer dizer, a Cinderela trabalhava sem remuneração, como escrava. A Bela não trabalhava, e nem por isso ela passava fome. Ok, seu pai era um inventor e tal, mas ele criava suas geringonças visando o sucesso, não o dinheiro (eu lembro das falas: “Eu vou ser um famoso inventor”. Sim, sou fã de A Bela e a Fera). Acho que o único que tinha o precioso metal como uma das preocupações da trama é Alladin, né? Bom, mas aqui em “Princesa” a questão ta bem mais próxima de nossa realidade. A princesa que não é princesa (ainda – uh, desculpe, acabo de estragar a grande surpresa) faz até hora extra, acreditam? O príncipe não tem nenhum tostão, e precisa se casar pra poder herdar a fortuna do pai. Príncipe falido? Acho que eu nunca vi isso. Parafraseando o Joel Grey: dinheiro faz o mundo girar, inclusive o mundo mágico dos sapos falantes.

Voltando: quando aparece um sapo na sua sacada que se diz um príncipe (já mencionei que o sapo fala?), pedindo um beijo pra desfazer o encanto, a tal Tiana fica indecisa, que ela é uma personagem animada, mas não é de ferro. Ela acaba beijando, mas a Disney nunca segue as histórias aos quais se baseia à risca (vide A Bela Adormecida e seu roteiro até que bastante elaborado), e o que seria o fim da trama original dos irmãos Grimm, aqui é só o começo. Ele não vira príncipe, mas ela vira sapo. Daí os dois vão partir em busca da magia que os transformará de volta, conhecerão bichinhos engraçadinhos, etc, vocês já sabem o resto. Fazendo aqui as minhas contas, acho que o último filme de princesas da Disney foi... Mulan, né? Uhum, gosto pacas de Mulan (e de sua mensagem anti-tradições – to nem aí que faça parte da cultura de um país. É excludente às mulheres?Não merece meu respeito). Encantada não conta, e nem é por não ser completamente animado, mas sim por ser mais uma sátira. Partindo de Mulan, uau, são mais de dez anos. Talvez eu tenha um palpite do motivo pelo qual esses filmes pararam de ser feitos. Acho que, de repente, veio um clique mágico na cabeça dos realizadores, que concluíram que isso de conto-de-fadas já tava ultrapassado. O tema que faz a cabeça das crianças agora é outro: o pum. E seus derivados, claro. Arroto é legal pra dar uma quebrada, pra não parecer muito repetitivo. Há um leque de possibilidades pra essas piadas escatológicas, dá pra inovar de monte. E as crianças ficaram mal acostumadas, né? Acabaram gostando. Certa vez, um amigo me perguntou porque raios eu apreciava muito mais Ratatouille do que Shrek, e eu, tentando ser sucinto, respondi algo como: “Porque temas como culinária e comida fazem muito mais a minha cabeça do que puns e arrotos”. Nada contra Shrek, mas, ahn, não dá pra comparar, dá? Pois é, a Disney até que tentou continuar na animação à mão, das antigas. Dessa tentativa falha vieram Nem Que a Vaca Tussa, Planeta do Tesouro e o pretensioso Atlantis. Eu até gostei um pouquinho deles quando vi (tirando “Vaca”, que não tem salvação mesmo), mas nada que tenha me marcado. Acho que o último filme de sucesso em animação tradicional da empresa foi A Nova Onda do Imperador, de 2000, não foi? Ah, esse sim, eu adoro. É pura ironia. Mas não conta como “Walt Disney Classic”, justamente por ser sarcástico demais. Vendo por todos esses lados, sim, A Princesa e o Sapo foi a volta da Disney ao subgênero que a consagrou. E a Tiana é a primeira princesa negra da Disney! Vocês podem falar que esse é só um itenzinho bobo, coisa à toa, nada pra se comentar, mas, poxa, é um fato marcante sim. E o filme trata essa questão com total naturalidade, do jeito que deve ser. E dessa vez ela trabalha porque quer, pra conquistar um sonho pessoal, não porque é obrigada. Ah, e ao contrário de grande parte das princesas Disney, o sonho da Tiana não tem nada a ver com casamento. Pelo menos no começo, ela nem pensa nisso. Outro motivo pra eu apreciar A Bela e a Fera, já que a protagonista também não quer saber de juntar os trapinhos com homem nenhum. A Bela, inclusive, dá um pé na bunda no maior galã da aldeia em que vive (um machista arrogante). Por estar mais interessada em se libertar do que em se casar, ela é vista por todos como “a estranha”, como diz a primeira canção do filme. Mas, no fim, óbvio, é ela que tem um final feliz. É um grande avanço esse da Bela e da Tiana (e da Mulan, claro), em relação às princesas anteriores, todas meigas e doces esperando pela salvação de seu príncipe. Acho que o fato da Tiana ser negra conta bastante, mas há mais coisas a serem discutidas. Ela tem muita personalidade, além de ser bastante decidida. Tiana sabe o que quer.

E os diretores de Alladin e A Pequena Sereia bem que se esforçam pra igualar o clima de “Princesa” ao tom que consagrou os contos-de-fada da Disney. Há várias canções bem ao estilo hoje completamente extraterrestre, aquelas cantorias que apresentam os personagens e suas motivações, além de expressar seus sentimentos. Os realizadores deviam andar com uma cartilha de tudo o que deve ter numa animação pra ela de fato parecer com as das antigas. Músicas animadinhas? Confere. Personagens coadjuvantes que garantem as piadinhas? Uhum, confere. Ah, gente, uma animação clássica não é completa sem esses coadjuvantes, geralmente muito mais marcantes do que os protagonistas. Tipo a vela e o relógio de A Bela e a Fera, sabem? Ou as fadinhas engraçadinhas de A Bela Adormecida, além dos anões de Branca de Neve e os Sete... Anões. Ou ainda os ratinhos de Cinderela. Sem contar o gênio de Alladin, que ainda me mata de rir. E, claro, os mais marcantes: Timão e Pumba (até quem nunca viu o desenho conhece esses nomes, ou, no mínimo, o som de “hakuna matata”). Eu gostei dos dois de “Princesa”: o jacaré (ou será crocodilo? Ih, lembrei agora que eu e meu irmão entramos em uma discussão parecida com essa enquanto víamos Jumanji. Se nós somos normais? Defina “normal”) que sonha em cantar jazz com os humanos é bastante carismático. Tem também o vaga-lume apaixonado por uma estrela. O final desse personagem eu achei bem original, e até ousado. Pelo menos pros dias de hoje, onde filmes infantis fogem do sentimentalismo como o diabo foge da cruz. Se bem que o coadjuvante engraçado que eu e meus irmãos mais gostamos nem foram esses: foi a amiga tagarela e hilária da Tiana, uma princesa de verdade (que lembra, por vezes, a Alice, aquela do país das maravilhas). Outra diferença positiva desse filme com os clássicos consagrados Disney: “Princesa” apresenta uma amizade verdadeira entre duas mulheres. Vocês vão achar que é marcação minha, mas, sério, todas as princesas Disney só tem amizades com bichinhos ou com fadas. Quando o assunto é personagem coadjuvante da espécie humana e do gênero feminino, é sempre vilão, detrator ou competidor. Sabem, as irmãs da Cinderela, as trigêmeas da aldeia da Bela, etc, sem contar as bruxas. Duas princesas num mesmo filme, sem que ambas arranquem os cabelos uma da outra pelo príncipe? Em que ambas terminem amigas? Ta aí, gostei.

Em alguns momentos, principalmente no final, eu me lembrei de A Princesa Encantada, conhecem? Provavelmente não. É uma animação de 94, não é da Disney nem nada, acho que nem tem em DVD no Brasil, mas que eu amo muito muito mesmo. Não o vejo há um tempão, mas ele fez parte da minha infância tanto quanto qualquer um desses clássicos Disney. Nele, uma princesa recebia uma maldição e virava cisne durante a noite. Gerou até uma continuação, que eu vi algumas vezes e não me lembro de nada. Ao contrário do filme original, que eu me recordo de cada detalhe. Às vezes eu to prestes a dormir e me lembro de alguma sequência dele. Isso é que é nostalgia. A Princesa e o Sapo causou isso em mim, então ta ok, valeu. Mas o fato de eu não tê-lo amado só vê corrobar aquela velha tese. Vários desses filmes (ou séries, ou até músicas) que a gente via quando criança, mesmo que sejam muito bons e tal, ainda assim, tem uma grande vantagem sobre qualquer coisa feita atualmente: eles vêm com as lembranças. E isso não se conquista com fórmulas bacanas ou realizações boas. Se conquista com o tempo. Daqui a 10 anos meus irmãos vão se lembrar de A Princesa e o Sapo com carinho especial, como eu me lembro de tantos? Espero que sim.

domingo, 13 de dezembro de 2009

UM ESTRANHO NO NINHO – Clássico-antídoto para dramalhões clichezados

A Mayara me pediu, carinhosamente, pra eu escrever sobre Um Estranho no Ninho. Daí, alguns, ahn, meses depois, ela me pediu de novo, assim, com toda a gentileza que deus lhe deu, pra eu escrever sobre esse filme que ela ama. E eu, praticamente um crápula, que tenho o DVD do filme aqui em casa, segui dizendo que “uhum, vou escrever sobre ele, em breve...”. Gente, vocês me conhecem, o meu “em breve” é bem “espera sentado”. Haha. Mas juro que não é por maldade. É falta de tempo mesmo. A Mayara, muito espertamente, me lembrou que o natal estava chegando, e que eu bem que poderia presenteá-la com um textinho, né? De Um Estranho no Ninho, dá pra ser? Depois dessa, fui correndo rever o filme, o que não é nenhum sacrifício, já que o adoro. Então, crianças, qual foi a lição de hoje? Com muita persistência a gente consegue o que quer. Por falar em persistência, a história por trás das filmagens desse clássico é muitíssimo interessante. Uma trama de amor e obsessão. O Kirk Douglas sempre foi apaixonado pelo livro que deu origem, mais tarde, a Um Estranho no Ninho. Ele chegou a montar uma peça de teatro com a história, que acabou sendo um enorme fracasso. O pessoal detestou. Mais tarde, junto com seu filho, Michael Douglas, ele montou um projeto para levar o livro aos cinemas. A paixão passou de pai pra filho. Os dois foram atrás de um diretor, e, depois de alguns anos (!), conseguiram encontrar um tal de Milos Forman, que mais tarde viria a fazer maravilhas como Hair e Amadeus (dá pra escolher o nosso favorito desse ótimo diretor?). Contrataram também Jack Nicholson pro papel principal (só que nessa época o Kirk Douglas já havia deixado o projeto todo nas mãos do filho), que um ano antes havia ganhado grande destaque ao protagonizar uma das obras-primas do Polanski, Chinatown. Se a gente for fazer um apanhado de quando Kirk Douglas pensou em adaptar o livro do Ken Kesey às telas até o ano em que ele, finalmente, estreou, em 75, quanto tempo será que dá? Mayara e Kirk Douglas, exemplos de persistência. Vejam bem, se não fosse por esses dois, nós não teríamos nem Um Estranho no Ninho e nem o textinho do Luciano sobre o filme. E como poderíamos viver sem essas duas coisas? Hein?

A trama é sobre um presidiário que, tentando fugir dos trabalhos impostos na prisão, se finge de louco para poder desfrutar da vida boa de um hospício. Lá ele vai conhecer uma porção de loucos, se envolver com eles e, mais tarde, influenciar suas vidas em vários aspectos. É bem aquelas tramas de um homem que muda os costumes de uma comunidade, sabem? Até parece uma história típica de sessão da tarde, mas alguns toques geniais o excluem completamente dessa classificação. É um drama emocionante, o que não significa que a gente não ri. Aliás, eu rio mais do que choro. Se bem que eu fico todo deprê no final. É esse tom estranho que percorre todo o longa. A gente não tem certeza se determinada cena é cômica ou dramática, se devemos rir ou chorar. Apesar de, inicialmente, o filme nos parecer um drama leve de superação, lá pelas tantas ele se mostra muito mais do que isso. Por exemplo, o personagem do Jack Nicholson ensina um índio aparentemente surdo-mudo a jogar basquete. Ele é paciente, e insiste, falando: “levanta o braço, levanta o braço e acerta a bola”. E não é que o índio, depois de muita insistência, levanta o braço arremessa a bola na cesta? Mais tarde, o mesmo pseudo-louco Jack Nicholson vai promover uma votação para conseguir acesso à televisão e, assim, poder ver seus jogos de beisebol. Acontece um empate, e por um voto ele não ganha. Daí, quem é que levanta o braço e dá a vitória ao Jack? Exato, o mesmo índio.

Falando assim, não tem toda a pinta desses dramas água com açúcar, em que o Jack ajuda determinadas pessoas que, no fim, acabam o ajudando? Mas, acreditem, não é. É, na verdade, um filme pesado, denso. O que não significa que não existam momentos mais leves e divertidos. É por isso que ele é especial, por isso que hoje é considerado um dos grandes clássicos do cinema. Por ter esse clima peculiar, engraçado, mas melancólico. Um de seus momentos mais divertidos, por exemplo, é o da festa às escondidas, no final, onde o personagem do Jack convida duas amigas suas para alegrar um tiquinho a vida daqueles loucos. Apesar da gente temer por eles serem descobertos, nos divertimos nessa sequência, rimos, relaxamos mesmo. Só que esse momento é seguido pelo mais tenso e pesado de todo o filme, totalmente arrasador. Sessão da tarde? Ahn, não mesmo! É essa irregularidade no clima que faz os momentos hilários virem acompanhados de um ar bastante depressivo. A gente ri, mas é quase um sorriso amarelo. Porque as situações são até engraçadas, assim como alguns personagens, mas o contexto, esse não tem nada de cômico.

Comédia de humor negro? Humm, talvez. É um filme bem difícil de classificar, eu diria. E isso é bom. Outro motivo que o faz fugir do posto de “drama familiar” são seus personagens, complexos demais pra esse tipo de filme. E as atuações... sem comentários. É exatamente o tipo de filme que nos faz querer que se crie uma nova categoria nas premiações: a de melhor elenco. Ta todo mundo super bem. O Christopher Lloyd, o Denny DeVito, o Brad Dourif, entre outros. E ele sabe usar todos os seus coadjuvantes (todos interessantes), sem desperdiçar nenhum. Pra mim a melhor personagem é a da enfermeira do hospício, interpretada por uma Louise Fletcher inspirada. Sua personagem é bastante cruel, má mesmo, e nós bem que poderíamos a odiar de cara. Um diretor mais preguiçoso e uma atriz menos competente criariam uma enfermeira Mildred como aquelas bruxas dos contos-de-fada, sabem? Quer dizer, é muito simples fazer o público criar antipatia por um personagem. Primeiro, caracterize o ator do jeito mais detestável possível. Verruga no nariz é uma boa pedida, e se ela vier sempre acompanhada de um gato preto, opa, melhor ainda. É bom também, pra dar o tom, que sempre que a personagem apareça se inicie uma música sinistra, daquelas de filme de terror. Ah, e a atriz que vai interpretar tal criatura infernal deve exagerar nos maneirismos: risada maquiavélica é sempre eficiente. E voilá! Fez-se o vilão. Mas, é claro, Um Estranho no Ninho não tem nada disso, porque, apesar de não parecer (no começo), ele é um daqueles exemplos do anti-sessão da tarde. A Louise Fletcher cria uma vilã perfeitamente sutil. Tão sutil que chega a ser difícil classificá-la desse modo, como vilã. De fala mansa e educada, na primeira cena em que ela aparece a gente pensa: oh, que amor! Só que o filme vai rodando e os atos da personagem não vão condizendo com seus trajeitos. A atuação da Louise Fletcher é como todo o filme: parece uma coisa, mas é outra, ou, talvez, seja as duas. É ambíguo. Reparem: ela está sempre no meio termo da serenidade e da completa perda do controle. Sua fala, por vezes, sobe um pouco o tom, assim como seu olhar, que, apenas por alguns segundos, se torna assustador. Mas logo ela volta à imagem da profissional competente. Não é à toa que ela ganhou o Oscar de melhor atriz, assim como o Jack Nicholson. Ah, por falar nisso, sabiam que essa é um dos únicos três filmes que ganharam as cinco estatuetas principais, em toda a história? São elas: atriz, ator, roteiro, direção e filme. Os outros dois prestigiados são Aconteceu Naquela Noite e O Silêncio dos Inocentes.

Além de tudo, ainda serve como um filme denúncia contra os tratamentos de choque, que parecem só fazer piorar. E a cena mais divertida, a mais alegre, deve ser aquela em que os internos fogem do hospício e vão pescar num barco. Por que essa escolha, por que andar de barco? Não tenho certeza, mas talvez seja porque o mar dá a maior sensação de liberdade. Vejam a diferença: as quatro paredes de um hospício e a falta de limites do oceano. Não soa poético? E em quantos filmes podemos ver temas tão diferentes juntos, sem que uma coisa pareça completamente desconexa da outra? Um Estranho no Ninho fala sobre liberdade: física e de expressão. Fala também sobre amizade, sobre alcançar metas, sobre ultrapassar a barreira do impossível. Mas ele também fala sobre coisas como loucura, rancor, perda do controle, suicídio. Acreditem: o resultado final, o timing do filme, é completamente diferente de tudo o que você já viu. Um clima estranho no meio desse ninho da mesmice.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ATIVIDADE PARANORMAL – Faça um terror

Fui ver Atividade Paranormal cheio de expectativas, confesso. Afinal, não é todo dia que você ouve falar que ta passando um filme de terror realmente assustador nos cinemas. Terror!, gênero quase morto e enterrado. A gente nota que ta havendo uma certa falta de ideias quando a cada dez filmes que saem nos cinemas, dois são sequências ou refilmagens dos clássicos, quatro são remakes de filmes orientais e cinco são cópias deslavadas de tudo o que a gente já viu. Espera, acho que fiz a conta errada. Whatever. E o trailer de Atividade Paranormal realmente chama a atenção. Nele, conferimos a reação de uma plateia teste ao longa, em uma de suas primeiras exibições. O pessoal pula, grita, chora, fecha (ou arregala) os olhos, etc. Não é exagero, podem conferir. E os distribuidores tiveram uma ideia jóia: no final do trailer, exibi-se uma mensagem estimulando as pessoas a pedir para que o filme seja exibido em sua cidade. Bem que podiam fazer isso com mais frequência, né? Então, mas essa mensagem tem uma explicação. Acontece que esse foi um filminho independente feito com 15 mil dólares por um diretor sem muitas pretensões. Filmado com atores desconhecidos com a técnica da câmera caseira (tipo Cloverfield e REC – este último ainda não vi) na própria casa do diretor (como ele consegue dormir lá?), o troço começou sua carreira de sucesso sendo exibido em festivais de terror. Os fãs do gênero aprovaram, e um tal de Steven Spielberg encontrou o filme, conhecem? Pois é, o produtor e dono de todas as ideias criativas de Poltergeist, só pra ficar no âmago do paranormal, junto com a produtora agora dona dos direitos, reeditou o filme, refilmou algumas cenas, mexeu em uma e outra coisinha e daí lançou-o em circuito. Mas, ainda assim, não foi um sucesso imediato. Lançado em poucas salas, o boca-a-boca foi estimulando o número de vendas de ingresso, o número de salas que o exibiam cresceu e, um mês depois de ter estreado, o troço foi pro topo das bilheterias americanas. Rendeu milhões que cobriram no ato a merreca gasta com as filmagens, se tornou um dos filmes mais lucrativos da história, ganhou o título de fenômeno e levou o Lucinao e alguns amigos ao cinema. Ah, gente, uma década nunca pode terminar sem uma dessas histórias de sucesso cinematográfico inesperado, né?

Bom, eu gostei do terror, embora creia que as pessoas andam exagerando muitíssimo. Já ouvi quem disse que é o filme que reinventa o gênero. Ahn?! Esse pessoal não viu A Bruxa de Blair, que completa dez anos de existência? Ok, foi uma pergunta meio burra, já que os adolescentes que vão aos cinemas hoje, há dez anos ainda não conferiam filmes de terror. E a maioria se recusa prontamente a ver qualquer coisa em DVD de dez anos, que já pode ser considerado velharia. Acho que esse deve ser o motivo de eu não ter me surpreendido tanto com “Atividade”. Porque eu não só vi, como também tenho o DVD de A Bruxa de Blair aqui em casa, sou fã do filme. Permitam que eu abra um parêntesis pra contar minha relação com esse terror. Tãotá, senta que lá vem a história. Quando eu tinha, o quê, 10 anos, talvez 11, vi o filme em casa... sozinho. Certamente tinha alguém no apartamento além de mim, mas não ali, do meu lado, apertando minha mão, me dando apoio moral. Me assustei muito, é lógico, se bem que naquela época eu já tinha visto O Iluminado uma dezena de vezes, então... Daí, esse ano mesmo, comprei o DVD de “Bruxa”, e resolvi revê-lo de madrugada, quando todo mundo aqui em casa já tava no quinto sono. Ao contrário da maioria das pessoas, quando eu vejo um filme de terror eu quero sentir medo, poxa. Não é essa a ideia? E acho que eu me assustei mais do que da primeira vez. Depois disso fui comer alguma coisa, escovar os dentes, arrumar minha cama... e, gente, qualquer barulhinho me fazia virar o rosto. Eu não ia na direção do barulho, porque já vi filmes de terror o suficiente pra saber que os fantasminhas não são camaradas. Foi complicado dormir naquela noite. Bom, depois disso, uma assombração passou a me perseguir (alguns amigos meus podem se identificar). Ah, mentira, que eu não acredito nessas coisas, mas que eu nunca mais tirei o DVD de “Bruxa” da prateleira, isso é verdade. O troço é apavorante! Agora, voltando: Atividade Paranormal é mais ou menos o primo pobre de “Bruxa”. E olha que este já era paupérrimo de orçamento. A história de sucesso dos dois é parecida, mas algo me diz que Atividade não vai ficar marcado, como “Bruxa” indiscutivelmente ficou. Se formos comparar esse novo terror com 90% do que sai por aí, uau, sem comentários, ele é praticamente uma obra-prima. Mas pra quem já viu A Bruxa de Blair, bah, Atividade soa batido, batido. Os dois filmes tem uma ideia idêntica, mas Bruxa é muito melhor realizado. O que não significa que Atividade seja ruim.

A história é assim: um casal decide tentar filmar o fantasminha (ou demônio, pouco importa) que persegue a mulher desde que ela tinha... 8 anos. A pobrezinha é claramente perturbada. Enfim, não que eu vá ter dificuldades na hora de dormir, mas “Atividade” assusta sim. Tem clima. E eu sempre adorei esses terrores muito mais sugeridos do que mostrados. Como o realizador não tinha grana, não daria pra ele encomendar um demônio gerado por computador, então teve que ser no improviso. E no improviso funciona muito melhor. Ruídos suspeitos, portas que se abrem e fecham, pegadas no chão, câmera de mão tentando focar em alguma coisa no escuro... Tudo isso ajuda a criar um certo clima. Ok, de novo, a gente já viu coisa parecida (só que melhor) dez anos antes, mas tudo bem, vamos fingir que é novidade. No meu caso, prefiro um filme não tão original barato feito muito mais com talento do que com dinheiro, do que um filme não tão original que custou milhões. Além disso, ele foge bastante dos clichês. Os protagonistas não são top models descerebrados que se assustam quando vêem a própria imagem no espelho. Não há trilha sonora também. Sei lá, eu sempre achei barulhos naturais muito mais assustadores do que aquelas musiquinhas típicas. Porque, ahn, nossa vida não tem trilha sonora, mas tem sim barulho de portas rangendo (pelo menos aqui em casa, que venta muito – não, não tem nada a ver com dead people, seus sádicos).

Agora, vamos aos momentos que mexeram com o meu coraçãozinho. Há alguns sustos pelo meio (e no final) que me fizeram chegar perto do teto do cinema. To falando, eu me envolvo com esses troços... É fácil incluir um susto inusitado muito barulhento do nada, todo mundo vai pular. Mas quando há clima envolvido, fica muito melhor, porque, assim, mesmo depois de pular, o pessoal volta ao estado estátua, sem chances para risadinhas histéricas. Mas os melhores momentos mesmo tem a ver com aquilo de A Bruxa de Blair (última vez que o cito, juro), de seguir (ou fugir de) algum fantasminha no escuro, com uma câmera de mão. Os mais chatos podem reclamar de como os dois protagonistas não param de filmar em momento algum, de como isso é irreal. Ahn, vejamos: se eles parassem de filmar... não existiria filme. Dã. Enfim, eu agarrei o braço da cadeira do cinema e fiquei com uma respiração meio irregular quando o rapaz enfia a sua câmera dentro de um sótão. Funciona porque nós tomamos o lugar da câmera, e qualquer buraco no teto é assustador de se investigar à noite, vamos combinar. E é bom que tudo aconteça de forma crescente. Tipo, no começo ouvimos apenas algum barulhinho, depois vemos um lençol se movimentando, assim por diante. A próxima assombração é sempre maior do que a anterior. E acho que eu nunca mais vou olhar pro meu irmão sonâmbulo, que tem o costume de andar enquanto dorme (no caso mais sério, ele dormiu no vaso sanitário – não to inventando), do mesmo modo. Da próxima vez que ele acordar e sair andando pela casa, eu vou pegar minha câmera e ir atrás dele. Quem sabe eu não consiga um filme também? Atividade Paranormal é interessante por nos provar que a gente não precisa de efeitos especiais de primeira pra fazer um bom terror, já que o clima, o ponto mais importante num filme do gênero, se consegue com talento. Opa, quem sabe eu não consiga fazer um Atividade Paranormal 2 aqui em casa mesmo. Como nenhum dos meus amiguinhos vai querer me acompanhar, que eles são sérios demais pra isso, meu parceiro vai ter que ser meu cachorro mesmo. Já pensou: eu o sigo com uma câmera pela casa, enquanto ele caça o nosso fantasma particular. O Toby, caçando alguma coisa? Aham, só porque eu quero. Seria mais um reality show de como a vida animal é difícil: o Toby dorme, come, corre um pouquinho atrás do próprio rabo, dorme, come, sobe na cama, dorme, desce da cama quando alguém descobre que ele estava ali em cima, come, dorme, arruma um tempo entre dormir e comer pra atasanar minha paciência, e dorme. E aí, acham que daria um filme de terror de sucesso? Ah, poxa, há semelhanças entre a vida tobyana e o dia-a-dia dos protagonistas de Atividade Paranormal: o casal atual mais queridinho dos fantasmas não come, mas dorme que é uma beleza.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ABRAÇOS PARTIDOS – Múltiplos cinemas num cinema único, de paixão

Kistch à antiga
Lá fui eu, todo faceiro, conferir o novo filme do cineasta espanhól Pedro Almodóvar. Abraços Partidos começa em tom de mistério, com uma câmera de filmagens tentando, de todas as formas, encontrar o rosto da Penélope Cruz no meio de alguns figurantes, e termina (eu não resisto) com um cinéfilo enlouquecido aplaudindo no meio do cinema, enquanto seus amiguinhos tentam se esconder atrás de alguma cadeira. O longa não agradou em Cannes e vem sendo recebido bem friamente por boa parte da crítica, decepcionada. Mas este que vos fala amou com todas as suas forças a produção, o melhor filme que vi no ano, decerto (mesmo que Bastardos Inglórios seja bárbaro). Pra mim essa é a sexta obra-prima consecutiva do cineasta. Sexta! Se a gente for parar pra pensar, há diretores que venderiam um de seus olhos em troca de apenas um grande filme no currículo. Almodóvar fez seis, um atrás do outro: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Má Educação, Volver, e, agora, Abraços Partidos. Claro que a gente pode ficar aqui horas discutindo qual dessas maravilhas é melhor, em vão (votar na nossa enquete já foi uma tortura). “Abraços” não é o roteiro mais elaborado de Almodóvar, e nem o mais original, mas ta tão, mas tão acima da média, que eu não consigo encontrar palavra melhor para descrevê-lo do que obra-prima mesmo. Portanto, estamos combinados: se Loz Abrazos Rotos não estrear na sua cidade, esperneie, faça um chilique, crie um circo, suborne o gerente de seu cinema, entre outras soluções razoáveis – seja criativo. Não é todo dia que o maior auteur do cinema contemporâneo nos entrega um filme, portanto, não deixe escapar, ok? Aliás, quem dera a nós, meros mortais, se Almodóvar fosse mais produtivo. Já pensou se lhe baixasse um Woody Allen, e ele começasse a fazer um filme por ano? Sonho meu... Ta bom, ta bom, um longa por ano é exagero, que o Almodóvar tem vida, mas, pô, um filme a cada três anos? Também não é exagero? A gente não merece tamanha tortura. Mesmo que esse filme a cada três aninhos seja sen-sa-cio-nal, como Abraços Partidos é.

Minha animação é tamanha que to até com medo de falar demais. E, é aquela coisa, saber demais, principalmente em se tratando de um filme do Almodóvar, nunca é bom. Meu amiguinho, por exemplo, disse, lá pelo final, quando uma daquelas reviravoltas almodovarianas ocorre: “ei, isso tava na sinopse que eu li!”. Já eu fui no cinema completamente sem informação. Mal mal tinha visto o trailer, só. Recomendo que vocês façam o mesmo. Vou contar uma sinopse bem simples a seguir, mas, se preferirem, pulem minhas próximas palavras. Bom, vamulá, o filme se divide entre a década de noventa, mais precisamente, 1992, e os dias de hoje, em 2008. Na história do passado, a Penélope Cruz é uma aspirante à atriz que vive com um rico empresário, enquanto tenta alcançar seus sonhos participando de um filme de um diretor de dramas, agora se arriscando pela primeira vez no campo da comédia. A outra história, nos dias presentes, contém vários personagens em comum com a outra, mesmo que com algumas mudanças: o diretor, vivido pelo Lluís Homar (o padre de Má Educação), agora está cego, e sobrevive de escrever roteiros comerciais de aluguel. A personagem da Penélope parece ter desaparecido de sua vida, e nós não temos nem noção do que aconteceu com o tal filme que eles rodavam juntos duas décadas antes. O desenrolar se dá nesse meio, entre as filmagens de Garotas e Malas e a atual vida do diretor, agora sem visão. Vem cá, onde eu recebo meu prêmio? Haha, contar a sinopse de um filme do Almodóvar (sem contar demais) não é tarefa fácil, mas acho que consegui. Isso daí, minha gente, não é nada. Pensem num filme magnífico. Agora multipliquem por 10.

É, mais uma vez, uma homenagem do cineasta à sétima arte. Em Fale com Ela Almodóvar já havia ousado ao quebrar as regras do ritmo e incluir um filme mudo dentro do filme, com quase dez minutos de duração, criando uma belíssima metalinguagem. O cinema dentro de Hable com Ella tinha total relação com sua história. Em Má Educacção ele foi ainda mais longe, já que personagens do próprio filme e do filme feito dentro do filme se confundiam constantemente. Além de ter criado um longa de gênero dos antigos, o noir. Aqui em Abraços Partidos essas referências cinematográficas chegam ao seu ponto máximo, ao ápice. Esse é o filme de Almodóvar que mais evidencia sua paixão pelo que faz, sua paixão pelo cinema. Uma das mensagens é: o diretor é fundamental no resultado final de um filme, e isso inclui a pós-produção. Há, mais uma vez, um longa sendo feito dentro do filme. Só que aqui, ainda, existe um documentário sendo rodado sobre as filmagens desse filme dentro de Abraços Partidos. Ou seja: é o filme dentro do filme dentro do filme. Confuso? Nenhum pouco. Transmitir o cinema de Almodóvar em palavras pode vir a dar um nó na cabeça de quem explica e de quem tenta entender, mas o cineasta é mestra no que faz: contar uma história. As tramas que vão e vem, a linha que separa o passado do presente e a ficção da realidade se desenvolvem de modo totalmente natural. O roteiro flui que é uma beleza, envolvente que só ele. As homenagens cinematográficas são de todos os tipos. Primeiro, ao cinema clássico. A gente não vai ver a Penélope Cruz vestida de Audrey Hepbun de novo tão cedo (e, nesse ponto, é também uma homenagem às atrizes). Mas o que mais causa deslumbramento em “Abraços” são as referências que Almodóvar faz de seu próprio cinema. Pra quem não se lembra, Almodóvar começou fazendo deliciosas comédias bizarras, cheias de cores e toques altamente pessoais. É assim Maus Hábitos, Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, A Lei do Desejo, De Salto Alto, Kika e até Ata-me!. No final da década de 90 Almodóvar passou a se dedicar mais aos melodramas, passagem essa marcada por Carne Trêmula. Suas principais características permaneceram, as tramas mirabolantes continuavam tendo um tom bizarro, mas o escrachado, o kistch, foi amenizado em seus filmes recentes. Até suas cores ganharam mais sutileza. Quer dizer, seus trabalhos de 97 pra cá ainda são belíssimos visualmente, e suas cores ainda são extremamente chamativas, principalmente se a gente for comparar com a morbidez da Hollywood atual, mas nada é mais tão berrante quanto na década de 80. Em Abraços Partidos segue-se a linha de seus últimos trabalhos: um drama profundo de belo visual, com cores marcantes, mesmo que não tão berrantes. Só que o filme que está sendo feito dentro do filme, Garotas e Malas, este lembra as comédias kistch do cineasta. Eu disse lembra?! Gente, o longa rodado pelo diretor antes da cegueira é puro Almodóvar de começo de carreira: situações bizarras, cores extremamente gritantes e diálogos hilários. Esse filme interno é praticamente um Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, o excelente longa de Almodóvar que lhe deu espaço no campo internacional (e uma indicação – a primeira – ao Oscar de filme estrangeiro). E esta homenagem de Almodóvar ao seu próprio cinema fica mais clara ainda com as várias participações especiais de atrizes suas das antigas, que levarão os fãs ao delírio (falo por mim). Ah, gente, ver a Chus Lampreave numa pontinha, fazendo a tagarela típica das comédias kistch, ou a Rossy de Palma, outra famosa chica do Almodóvar, não acontece todo dia. Existem homenagens ao cinema clássico, mas existe também uma forte menção ao cinema primordial de Almodóvar. É como se ele nos dissesse: eu abandonei, mas ainda amo essas comédias escrachadas. E como ama...

Além disso, ainda há o documentário sendo rodado sobre Garotas e Malas, que tem toda a pinta daqueles thrillers de mistério, cheio de tensão e suspense, bem hitchcockiano. Um dos elementos que mais amo no cinema de Almodóvar aqui vem com a corda toda: a fusão dos gêneros. Lembram de seu último filme (e como esquecer?), Volver? Nele havia suspense e uma certa história de fantasmas, humor do mais delicioso e melodrama emocionante, tudo marcado por uma forte trama sobre passado. E Volver não é o único! Não se assuste se você se ver rindo, chorando, roendo as unhas, suando, pulando e vibrando, tudo ao mesmo tempo, em filmes como Fale com Ela e Tudo Sobre Minha Mãe. Almodóvar já declarou que ele adora que seus filmes não possam ser classificados em um gênero único. É assim também em Abraços Partidos. A história de obsessão e paixão dos dois homens por uma mulher é trágica e melodramática, o estilo atual mais habitual de Almodóvar. O filme sendo rodado dentro dele, como eu disse, é uma releitura dos primórdios almodovarianos, de suas comédias kistch. As cenas em que nos é mostrado o que o filho do produtor e documentarista anda filmando é recheada de tensão. E todos esses gêneros juntos não fazem Abraços Partidos soar indigesto, estranho demais. Nem forçado. Vindo de um gênio, tudo isso se encaixa perfeitamente numa trama pra lá de instigante. Podemos dizer que as referências aos vários tipos de cinema é apenas um item no longa, mas ele não se faz apenas disso. A trama central é igualmente magnífica, absurdamente paralisante. O público da sessão em que eu estava nem piscou nos momentos em que Almodóvar dá aquelas suas reviravoltas habituais. E todos compareceram em peso nas cenas cômicas. Adorei toda aquela parte em que o ricaço contrata uma leitora de lábios para lhe dizer o que sua amada está falando para outro homem em uma fita amadora, daquelas com chiado que não nos permite ouvir nadinha. É hilário e trágico, ao mesmo tempo. É aqui que aquela magistral confusão dos gêneros típica de Almodóvar se torna mais visível: a gente teme pela personagem da Penélope Cruz, que gostamos de cara, mas, mesmo assim, não tem como não rir da situação. Sem contar a sequência final, onde vemos uma cena completa de Garotas e Malas. O filme dentro do filme não é apenas uma coisinha insignificante, um item à parte em Abraços Partidos. Almodóvar o faz com maestria, assim como fez o curta mudo de Fale com Ela. Ri espontaniedade no cinema como há tempos não ria, coisa que o cinemão americano raramente consegue fazer. Em parte pelos diálogos espontâneos que me trouxeram boas lembranças dessa época de Almodóvar, e, em outra, pela participação da Carmen Machi, que captou o espírito da coisa. Será que existe alguma chance de Almodóvar nos presentear com mais de Garotas e Malas? Nos extras do DVD, talvez? Não custa sonhar.

Se eu tenho uma reclamação, esta seria por parte de algumas revelações finais meio previsíveis. Mas o cinema de Almodóvar não se assemelha a esses suspensezinhos bocós que se apóiam completamente no the end. Aliás, Almodóvar não poupa as surpresas da trama apenas para o grand finale: ele pode se dar ao luxo de revirar a história do avesso no meio do filme, sem problemas. Por isso não importa que uma das surpresas no desfecho seja previsível, já que o filme se sustenta sem ela. E a sequência final, inspiradíssima, nos faz esquecer de qualquer uma dessas besteirinhas. Por que dar tanta importância a um ponto negativo numa obra entupida, abarrotada, de pontos positivos? Aliás, “ponto positivo” é nivelar por baixo. Qualquer diretor que se atreva a enganar o seu público perde o respeito no ato, mas com Almodóvar (e com Hitchcock) a gente não liga, porque ele faz isso com tanta classe... Há um momento em que nós pensamos que determinado personagem morreu. O cinema parou de respirar nesse instante. E aí... ele ta vivo! Brincadeirinha. É essa naturalidade em criar reviravoltas mesmo fora do clímax que faz de seus filmes tão inusitados. Almodóvar merece ser reverenciado só pelo fato de ele não ter medo algum de entrar de cabeça no melodrama. Hoje em dia o pessoal acha que esse gênero já ta batido, brega. Quem tenta filmar melodramas monumentais acaba sempre caindo no piegas. ...E O Vento Levou jamais seria feito nos dias de hoje, por exemplo. É muita emoção pra um filme só, blarght! Atualmente, quanto menor, mais íntimo e sutil for um drama, melhor, mais respeito ele terá entre os críticos e nas premiações. Pois Almodóvar é a prova viva de que ainda dá, sim, pra criar um dramalhão dos grandes sem perder a qualidade. Não é por ser assumidamente melodramático que um filme do Almodóvar nos faz chorar manipuladamente. Pelo contrário. Almodóvar tira o vínculo que a palavra “melodramático” tinha com a expressão “de qualidade discutível”. O dramalhão de Almodóvar não é barato. Querem um exemplo? A cena da escada que ilustra o belo cartaz do filme (provavelmenta a sequência que mais mexe com o público, e eu me incluo aí) jamais seria feita nos dias de hoje se Almodóvar não existisse. Qualquer um faria uma cena dessas cair no “novela mexicana” assim ó, sem muito esforço. Por isso ninguém ousa tentar criar cena de cunho dramático tão forte: porque as chances de ficar piegas e brega são altas. Mas quem disse que Almodóvar tem medo? Ele confia no seu taco e, assim, cria mais um filme cheio de lirismo, de poesia, de sutileza e simplicidade, mas, ao mesmo tempo, cheio de momentos que nos fazem lembrar dos dramas monumentais que fizeram sucesso há alguns anos, antes de serem considerados batidos. É um filme gigantesco, mas, ao mesmo tempo, simples; bizarro, mas crível; de clima pesado, às vezes beirando ao noir, mas também leve e divertido. Em mãos erradas tantos elementos diferentes, todos esses múltiplos cinemas, virariam um troço intragável. Mas Almodóvar tem mãos mágicas, e faz, com todas essas características, um cinema único. E aqui ele assume sua paixão pela sua nova musa de vez, e filma Penélope Cruz (nunca tão linda) como ninguém a havia filmado. O filme é sobre sua personagem sim, mas é mais sobre a paixão e a obsessão (temas frequentes de Almodóvar) de dois homens por aquela mulher. É sobre como esses dois itens estão sempre a um passo da tragédia. A personagem da Penélope é uma espécie de encarnação física do cinema. Ela representa o cinema. E, ao mostrar tantos personagens obceacados e apaixonados por ela, Almodóvar cria um paralelo com a paixão que ele tem pelo seu ofício. Querem motivo maior pra ir correndo aos cinemas conferi-lo (ou fazer aqueles protestos, caso “Abraços” decida passar longe da sua região)? Eu digo: ninguém consegue unir tantos personagens diferentes com passados, histórias, personalidades, profissões e aspirações diferentes, em uma única trama, sem parecer forçado (vide Carne Trêmula e seus cinco protagonistas). Eu sou um louco apaixonado babão pelo cinema de Almodóvar porque ele causa em mim efeito que pouca coisa passando nas telonas consegue causar: filmes como Abraços Partidos me fazem lembrar que o cinema é um retrato da realidade, e, ao mesmo tempo, uma fuga da realidade. Me faz lembrar que cinema é entretenimento, é vida, é arte, é lugar de esquecer os nossos problemas e se envolver com os problemas de outras pessoas. No escurinho do cinema todos somos iguais, todos temos o direito de rir ou chorar sem que ninguém se importe com a pessoa do lado, já que tudo o que interessa naquele momento é o que está passando na tela. Eu amo o cinema de Almodóvar porque ele me faz lembrar do tanto que eu amo o cinema.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O VISITANTE – Vida gloriosa na América

Tava aqui pensando com os meus botões porque, ó céus, o lixão americano invade todas as nossas salas de cinema, e um dos melhores filmes do ano, ahn, retrasado, O Visitante, só chega aqui em DVD. Daí fui pesquisar mais sobre esse comovente filme, e descobri que ele veio pros cinemas brasileiros sim. E, gente, eu nem notei. Então, de duas, uma: ou ele passou por aqui voando, num estalar, ou eu tava hibernando nas semanas em que ele entrou em cartaz. Ok, você pode até acreditar na segunda opção, mas, fala sério, não houve nenhum alarde. E é um belo filme, muito significativo. Quer dizer, longas sobre preconceito existem muitos. Mas sobre o preconceito contra imigrantes, passado nos dias atuais? Eu não me lembro de nenhum.

Só que, claro, não basta um tema pertinente pra se fazer um bom filme. O mais importante é o modo como esse tema é tratado. O Visitante é um filme contido, mas, ao mesmo tempo, cheio de emoção. Conta a história de um quarentão, professor de uma faculdade, que acaba de enviuvar. A gente nota que ele não é lá muito feliz com a vida que tem porque faz aulas de piano, e sua professora diz: “Não desista. Aprender com a sua idade não é fácil, ainda mais quando não há talento nato”. Dose. E ele parece se empenhar, porque ama música clássica. Daí ele vai até seu apartamento em Nova York, onde passa poucos dias do ano, e o encontra ocupado por um casal de imigrantes ilegais. Descobre que um cara alugou seu apartamento pra eles, e, agora que tudo se esclareceu, que ambos descobrem que aquele ap tem dono, as coisas se complicam. O casal não tem para onde ir, e o solitário homem lhes permite que fiquem na casa até encontrarem lugar para ir. É claro que, a partir daí, vai se desenvolver toda aquela coisa de o cara frio e mal resolvido com o mundo que aprende a valorizar mais a vida com os estranhos que entram nela. Mas, acreditem, O Visitante foge de qualquer clichê. Querem um exemplo? Em dado momento, um personagem está para ler uma carta bastante importante à história. Qualquer diretor de aluguel menos competente não perderia a chance de levar o público às lágrimas fáceis nesse momento, colocando as palavras escritas na carta em uma narração em off, de preferência da forma mais melosa possível. Mas o diretor e roteirista Thomas McCarthy não é desses. Vemos apenas o personagem lendo a carta, e acompanhamos o que ali está escrito simplesmente por sua reação e por suas emoções à leitura. É um filme bastante silencioso. Ou, pelo menos, com poucos diálogos.

Ele conta com uma história sincera e personagens bem desenvolvidos, além de prezar pela simplicidade. O Visitante é inteirinho como a atuação do Richard Jenkins: contida, mas emocionante. Aliás, o ator foi, obrigado justiça, indicado ao Oscar por seu desempenho. Richard quem?, você deve estar se perguntando. Acho que ele é mais conhecido por A Sete Palmos, aquela série da HBO em que ele faz um pai de família que morre e deixa mil e uma questões em aberto pra família resolver – financeiramente e psicologicamente também (não sei se isso conta muito, provavelmente não, mas A Sete Palmos é minha série favorita. Se eu tenho uma birra com algumas séries americanas é que elas resumem demais alguns personagens a uma característica só. O negro é apenas o negro, o gay é somente o gay, a dona-de-casa é apenas a dona-de-casa, etc. Como se as pessoas reais fossem assim. Eu amo essa série porque todos, eu disse todos, os personagens – e as situações também – são inusitados. Se eu fosse vocês eu parava um pouquinho de ver Lost e conferia Six Feet Under, que foi criada pelo Alan Ball, o roteirista de Beleza Americana. Mas vamos voltar ao assunto do post, sim?). Por mim o Haaz Sleiman também poderia ter sido indicado a coadjuvante, porque o seu personagem é bastante difícil, e ele o faz com muita competência. Quer dizer, dava muito bem pra sua atuação cair naquela caricatura de bobo-alegre, de “veja o lado positivo de tudo”. A alegria do personagem do imigrante é contagiante, mas ninguém é assim eternamente. Quando as coisas começam a dar errado e ele se enfurece, sua atuação não muda completamente, da água pro vinho, de bonzinho pra malvado. Há ali uma confusão dos dois sentimentos. Eu o indicaria pras premiações da vida só por ele dizer a frase mais marcante do filme, sem soar piegas: “Só quero viver minha vida e tocar minha música. O que há de errado nisso?”. Quando o personagem mais carismático é preso por ser ilegal, é aí que nós sentimos a mensagem do filme. Eu não parava de pensar na letra da melhor música de Amor, Sublime Amor (West Side Story – que eu revi esses dias pra escrever sobre ele). A canção se chama justamente America, e ela diz “A vida é gloriosa na América...”, completando: “... se você for branco na América”. Quem crê que essa canção só vale pra época do filme (62), acho que ta na hora de fazer uma visitinha à terra das oportunidades. Engraçado como um preconceito leva a outro, né? O preconceito contra imigrantes não tem muito a ver com a legalidade ou a ilegalidade, e sim com a questão racial mesmo, cultural. Quer dizer: não importa que você mostre seu greencard, se você tiver um. Pra fugir dos preconceitos e ser aceito, como diz West Side Story, você tem que perder o sotaque. Pra começar.

É um filme sobre esse tema universal da imigração, mas é também uma história íntima. O Visitante do título pode ser uma porção de coisas. Pode ser os imigrantes, visitando um país hostil, mas também pode ser o personagem do Richard Jenkins, que está visitando aquela nova cultura. É um pouco sobre isso também, sobre a fusão das culturas. É emocionante ver um homem sério, de social, que aprecia música clássica, tocando um tambor africano. E não é curioso como ele precisa conhecer pessoas de outros países para poder apreciar seu próprio país? Ele nunca tinha visitado a estátua da liberdade e nem ido à Broadway antes de conhecer o trio de imigrantes. Trio, sim, porque, lá pelas tantas, a mãe do personagem do Haaz Sleiman também aparece. O que eu mais gostei é que o filme não faz os imigrantes de santinhos e os americanos de malvados. A personagem da Hiam Abbass, árabe, olha pra mulher de seu filho, que ela ainda não conhecia, e comenta: “nossa, ela é muito negra!”. Foi inusitado pra mim, acostumado com a divisão tão clara de Hollywood do bem e do mal. O filme vale a pena por não ser um daqueles dramas empacotados feitos aos montes por lá. O final em aberto (e real, mesmo que duro), mostra bem isso. A música pode muito bem trazer alguma alegria pra vida dos personagens. Mas ela não resolve todos os problemas, infelizmente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O SILÊNCIO DE UMA MELINDA

Seguinte, semana passada uma leitora anônima deixou um comentário no meu textinho de O Silêncio de Melinda, aquele filme independente em que a Kristen Stewart vive uma adolescente que é estuprada e não conta pra ninguém, sabem? Ela disse:

“Sabe, achei interessante a sua postagem. Mais do que isso, a maneira como coloca a situação da personagem. As vezes o medo faz com que a gente se cale, e as pessoas simplesmente ignoram o fato de existirem milhares de coisas detras do nosso silêncio. Eu acho que não estou preparada para contar à minha familia o que aconteceu. Nunca estive. E talvez, nunca vá estar. Mas preciso de ajuda. Preciso falar.”

Passei o meu e-mail pra ela e disse que, se ela precisasse de qualquer tipo de ajuda, era só falar. E ela falou. Se apresentou pra mim, me disse seu nome, mas me pediu para mantê-la no anonimato, caso eu fosse publicar nossa conversa aqui no bloguinho, e é o que farei. Antes mesmo de conhecer sua história, eu lhe enviei um e-mail falando que não sabia bem como poderia ajudar, mas dando todo o apoio pra que ela contasse pra alguém, denunciasse seu agressor. Disse que em mais da metade dos casos de estupro o agressor é um amigo da família, ou até um membro da própria família. Por isso, ela não precisava se calar se, no caso dela, essa pessoa fosse alguém próximo. Finalmente, lhe enviei um link de um site que dá apoio às mulheres que sofreram qualquer tipo de agressão. Disse-lhe também que ela não precisava me contar sua história, se não se sentisse à vontade pra isso. No mesmo dia, ela me respondeu:

“Oi Luciano! Eu li o que você me escreveu, e confesso que me surpreendo cada vez mais com o seu esforço em lidar com essa situação, na tentativa de ajudar pessoas como eu. Bom, pelo que você escreveu, tive a impressão de que você pensa que sou uma 'mulher', e dessa forma, independente. Então... Acontece que tenho 16 anos, frequento o ensino médio e ainda moro com os meus pais. Digamos que sou bem dependente ainda. Quanto a minha história, é um pouco longa, então vou resumir mais ou menos como as coisas aconteceram. Quando eu tinha 11 anos o meu pai começou a mexer comigo, passando a mão pelo meu corpo e me beijando. Depois de um tempo a situação foi piorando, até que ele começou a abusar de mim. Eu queria gritar, correr ou contar pra alguém, mas o medo me deixava completamente desnorteada. Eu dei varios sinais de que estava com problemas, como notas ruins, isolamento ou meus constantes desenhos de pessoinhas nuas (nem eu sei explicar o motivo pelo qual as desenhava assim), mas parece que todos os sintomas passaram despercebidos aos olhos alheios. Desenvolvi anorexia e bulimia, chegando a estado grave. Ele parou de me molestar devido a esses transtornos alimentares, entretando nunca consegui ser a mesma. Ele me fez prometer que iria guardar segredo, e eu cumpro essa promessa há anos. Eu tenho medo, não só da reação dele mas das outras pessoas também. E vergonha, muita. Sabe, já andei pesquisando e no Brasil as leis não são muito simples. Eu deveria ter denunciado até 6 meses depois do ultimo estupro - agora a denuncia pode não ser mais válida. E a minha mãe não pode sair de casa comigo, pois assim ela perderia todos os direitos pra ele. Sem falar que ela poderia ser acusada por negligencia - mesmo ela tendo não notado não por mal (ela é uma pessoa meio distraida mesmo). Entrei no link que você mandou, ele se refere a uma casa que abriga mulheres que foram violentadas. Como eu disse, só tenho 16 anos e não posso sair de casa... Muito menos ir para Lisboa. Rs. Mas obrigada por ter ido atrás, foi bem gentil de sua parte. Ah, você pode publicar a nossa conversa sim. Mas mesmo existindo milhares de -- no mundo, prefiro que me deixe como anônima. Obrigada pela ajuda, é um alivio poder contar isso pra alguem. Um abraço, --.”

Então, eu respondi:

“--, fico muito triste por não poder te ajudar devidamente. Pelo que parece, você entende do assunto muito mais do que eu, então, podemos tirar uma conclusão: o seu silêncio e o silêncio de tantas outras meninas/mulheres, não vem por parte da ignorância. É pelo medo mesmo, pela vergonha. E eu não vou dizer "não tenha medo, não tenha vergonha", porque é fácil falar. Fazer é muito complicado. Sei que não posso ter nem metade da noção de sua história apenas pelo seu e-mail, mas sigo te apoiando pra que você denuncie seu agressor. Mas pra mim é difícil imaginar: uma pessoa que fez isso com você, mas que, bem... é seu pai. É muito complicado, muito. Mas essa nossa conversa não vai ser em vão. Vou publicá-la no bloguinho e, assim, fazer com que os meus leitores notem que esse tipo de história não acontece apenas nos filmes. Existem muitas Melindas por aí. Assim, se alguém souber como te ajudar, se alguém que ler o post tiver mais conhecimento no assunto do que eu, ele falará nos comentários. E você poderá ler. Só que o primeiro passo tem que vir de você. E esse primeiro passo é, realmente, o mais difícil. Mas só pelo fato de você estar contando isso, mesmo que via internet, mesmo que pra uma pessoa que você não conhece, acredite, esse já pode ser considerado um passo. Muito obrigado por compartilhar sua história, e mil desculpas se eu fui meio inútil. Mas, pra mim, o seu e-mail foi mais do que significativo. Tudo de bom!”

Os e-mails se auto-explicam. Se alguém souber como ajudar, essa ou outras Melindas, por favor, pronuncie-se.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

JULIE E JULIA – Delicie-se sem culpa

Como diria um animalzinho de Os Sem-Floresta: os humanos se sentam ao redor da comida e idolatram a comida
***
Depois de ter tido um ataque epilético no meio do cinema, quando vi pela primeira vez o trailer de Abraços Partidos (filmes que aguardo muito, principalmente os do sempre surpreendente Almodóvar, eu gosto de conferir sabendo o mínimo possível da trama. Felizmente o trailer não conta demais), me aconcheguei na poltrona, esperando um filme gostoso, divertido, engraçado, sincero e original, mas nenhum pouco pretensioso, como o trailer me fez crer que Julie e Julia seria. E, bem, não é que eu estava certo? O filme é tudo isso mesmo, e eu gostei bastante, ao contrário dos críticos por aí, que não andam agradando muito da nova comédia. De qualquer forma, acho que o público, no geral, vai se deliciar. Pelo menos na sessão em que eu estava, o pessoal riu sem pena de todas as piadas mais engraçadas (a melhor delas é a que a Meryl Streep aprende a cortar cebolas). Estávamos todos no clima que o filme (quase um feel good movie) pedia. Tirando um homem que fez som de nojo quando o trailer de Lula – O Filho do Brasil passou antes da sessão se iniciar propriamente, o resto foi ok. Sem problemas dessa vez.

Assim: JJ é baseado em duas histórias reais, narradas em dois livros. Uma dessas histórias é a de Julia Child, uma famosa cozinheira americana que ficou conhecida por popularizar a culinária francesa nos Estados Unidos. A outra história é a de Julie Powell, uma escritora com um trabalho temporário que não tem nada a ver com ela, que, cansada do tédio, decide criar um blog. Nele, ela estabelece uma meta: cozinhar as centenas de receitas que Julia Child escreveu em sua bíblia culinária no prazo de um ano. O blog fez o maior sucesso e acabou virando livro. E agora o livro virou filme, junto com a obra que conta as memórias da famosa cozinheira. Não vou mentir: eu me identifiquei com a parte do blog. Quando ela recebe um comentário e quase pula da cadeira de felicidade, por exemplo. Ou quando ela se pergunta se alguém a lê, se ela não está escrevendo pro nada. Acho que todo blogueiro vai concordar comigo que, pelo menos no começo, são bem essas as nossas reações. E, posso estar enganado, mas esse não é o primeiro filme feito baseado num blog? Fiquei pensando sobre isso. Já imaginaram? Em um dia você decide compartilhar com outras pessoas suas experiências e pontos de vista, e, no outro, suas experiências e pontos de vista estão no cinema (!). Fiquei fantasiando como seria se um produtor de Hollywood encontrasse meu bloguinho. Óbvio que ele iria querer adaptá-lo no ato, cof cof. Seria um filme tããão animado. Praticamente um longa de ação, daqueles com orçamento maior do que o produto intero de alguns países pobres juntos.

Pode escolher? Porque, se der, eu gostaria que o filme inspirado no bloguinho fosse roteirizado e dirigido pela Nora Ephron. Fui ver JJ porque ele contém duas atrizes que eu adoro, porque o trailer já me tinha deixado mais leve, porque o tema central é comida, e, principalmente, porque algo me dizia eu essa seria a grande volta da Nora Ephron. E não é que é mesmo? Ou então, vejamos, o último filme que ela escreveu e dirigiu foi... A Feiticeira. Já deu pra entender. Mas, antes de se entregar a esse tipo de quinquilharia, a Nora já havia escrito a melhor comédia romântica de todos os tempos (ou, pelo menos, a minha favorita), Harry e Sally. HS é um clássico em parte pelas atuações memoráveis da Meg Ryan e do Billy Crystal, muito bem dirigidas pelo Rob Reiner, mas o melhor do filme são os diálogos da Nora Ephron, geniais e hilários (eu to sempre citando alguns deles, no meu dia-a-dia). Sem contar a estrutura narrativa, totalmente perfeita. Amo Harry e Sally, e, por isso, estava bem confiante em Julie e Julia. Sabia que iria gostar. O roteiro é, de novo, o ponto forte, junto com as atuações. Aqui nos é narrado duas histórias de duas mulheres com vários aspectos em comum entre si, mesmo que ambas se passem em épocas diferentes. Há várias sacadas bem legais sobre essa diferença dos anos. Por exemplo, Julia, que vive na década de 50, pouco se importa se está engordando. Aliás, quando seu marido lhe pergunta qual a coisa que ela mais gosta de fazer, Julia responde: “comer”. Dá gosto de ver uma mulher tão conformada com seu tamanho (a Julia real tinha quase um metro e noventa, além de gordinha). Em uma narração, ela diz que, em Paris, gostava mais de comprar comida do que vestidos. “Também, do jeito que é difícil encontrar roupas do meu tamanho”, completa. Não que ela se importe. A gente olha pra Julia e não consegue pensar na palavra dieta saindo de sua boca. Aliás, pela sua boca entra aqueles pratos estranhos franceses de preços proibitivos, mas também entra coisas mais próximas (graças a deus) de nossa realidade, como bolo de chocolate (to comendo panetone de chocolate nesse momento, enquanto escrevo, serve?). Enquanto isso, Julie, que vive nos nossos tempos, também ama comer, mas algo em sua cultura lhe ensinou que o ato de comer deve vir acompanhado do da culpa. Em dado momento ela reclama pro marido que andou engordando. Engraçado, eu que pensei que os tempos haviam mudado – pra melhor. Fico triste pacas quando vejo mulheres se privando de um dos maiores bens da vida. Comer, gente, comer. Ok, muitas podem vir com aquele discurso de “eu quero emagrecer pra me sentir bem, e não pros outros verem”. Aham, acredito. Se a gente for pensar, as mulheres ficam apenas na saladinha porque querem ficar mais magras... pros homens. Não é péssimo? Nos tempos da Julia Child, onde as mulheres que apareciam na TV, nas passarelas e nas revistas não tinham um padrão de magreza tão magro como hoje (a Marilyn Monroe, por exemplo, se vivesse nos nossos dias, seria mandada urgentemente pra uma academia, pra um spa), a culinária não vinha acompanhada da culpa. Naquela época acho que nem existia essa paranóia por coisas diet, light e zero, como há hoje. Vocês podem atacar dizendo que os nossos tempos são muito mais saudáveis, já que, com o avanço da ciência, podemos controlar melhor as calorias que comemos. É, ta, pode até ser. Mas, na época da Julia Child, tenho certeza que existiam poucos casos (se é que existiam) de bulimia, anorexia, etc. Naquela época os dois sexos tinham direitos iguais. Pelo menos, em frente à mesa.

Foi isso que mais gostei. Intercalar essas duas tramas de duas mulheres parecidas em alguns pontos, mas que vivem contextos bem diferentes. Só que talvez eu tenha exagerado nesse lado. O filme não dá tanta atenção à questão do peso, nem da culpa. É só uma a vez que a Amy Adams reclama de seu peso. Na maioria das cenas ela está comendo ou cozinhando, então... Agora, gente, só pra vocês não falarem que eu não avisei: se a Meryl Streep não for indicada ao Oscar do ano que vem, eu mesmo farei o favor de me dirigir até os velinhos da academia e perguntar “vocês bebem?”. A Meryl ta perfeita. Isso pode soar redundante, já que ela é bem perfeita, pelo menos como atriz. Mas, sério, ela ta idêntica à Julia Child real. Esta teve um programa famoso, que durou bastante tempo na TV americana. Eu só a conheci pela magia do youtube. Confiram. A Meryl ta igualzinha a ela: o jeito de falar, de andar, de rir. E ela faz parecer tão fácil atuar (quando eu tentei imitar a voz meio caricata da Julia Child foi frustrante – ainda bem que eu estava sozinho em casa. Tirando meu cachorro, que está até agora rosnando pra mim. Ele deve ter achado que eu fui possuído ou algo do gênero – quem sou eu para culpá-lo?). A Amy Adams também está divertida. Algumas pessoas acham que ainda é cedo, mas eu já ouso a chamar de grande atriz sim. Até em (bate na madeira, isola) Uma Noite no Museu 2 ela ta bem. E ela contracena com o... Ben Stiller. Minha heroína.

Se houve um momento do filme que não me agradou, esse foi quando o marido da Julie a abandona. Eles se amavam, eram carinhosos, se respeitavam, se divertiam juntos, eram um metade da laranja do outro (eu quis fazer um trocadilho culinário, mas acho que não deu muito certo), etc. E daí, uma briguinha bobinha que eles tem já quase dá em divórcio?! Ficou estranho. Mas, no geral, gostei dos personagens dos maridos. Os dois são bastante compreensivos com suas amadas, e apóiam o que elas decidem fazer. Dão um ou outro palpite, mas a escolha é delas. E gostei do final anti-clichê. A culinária não gera um filme tão delicioso desde Ratatouille, se vocês querem saber. Há uma cena em que a Meryl Streep quase tem um orgasmo (figurativamente falando) por comer determinado prato culinário. Eu me identifiquei. Ah, gente, é um filme que celebra o ato de comer, coisa que todo mundo (com ou sem culpa) ama. Dá pra não se identificar?

domingo, 29 de novembro de 2009

MONTY PYTHON PRA TODOS OS GOSTOS. OU QUASE

Rá, agora sim eu posso falar sobre Monty Python, o grupo inglês mais irreverente, escrachado, engraçado e inteligente que o resto do mundo já teve o prazer de ver. Infelizmente, ainda não conferi nenhum episódio da série de televisão onde eles começaram, antes de deslancharem no cinema. Mas, em compensação, e em boa parte por insistência de vocês, assisti essa semana a todos os longas que a gangue fez. Ih, olha eu falando como se fossem muitos. O “todos” são apenas três. Só que a gente não pode reclamar, porque o que o grupo influenciou (e revolucionou) todo um humor, não é brincadeira. Se não fosse Monty Python não existiria Casseta e Planeta, por exemplo. E, se é pra forçar a barra, talvez nem South Park (e o que seria do mundo sem o longa em animação da série, South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes? – não to sendo irônico). Os Pythons escreviam os roteiros, dirigiam e atuavam em seus filmes. Não havia uma divisão clara, já que tudo era feito em equipe mesmo, mas se a gente tiver que escolher os cabeças do grupo, esses seriam O Terry Jones e o Terry Gilliam. Quando o grupo se separou, a maioria deles partiu pra carreira solo. Gilliam ainda está na ativa como diretor, e acaba de lançar seu novo filme, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (quer motivo maior pra conferi-lo? Este é o último em que o Heath Ledger atuou).

O primeiro longa deles é ainda o mais cultuado, Em Busca do Cálice Sagrado. Se você acha que conhece a humor pastelão e nonsense apenas vendo as comédias atuais, bem, eu te apresento “Cálice”. Hilária, a comédia já impõe o tom que irá acompanhar os Pythons por toda a sua carreira. Não foi fácil pro grupo filmar a história do rei Arthur e de seus seguidores em busca de um cálice que eles nem sabem direito pra que serve (é bem uma sátira a esses filmes da Idade Média, onde cavaleiros saem em busca de espadas, artefatos e pedras com nomes esquisitos). Primeiro eles começaram com uma merreca de orçamento, que hoje se equivaleria ao cachê do figurante que morre em algum dos terremotos de 2012. Lá pelas tantas, como era de se esperar, a grana acabou, e o filme só pode ser concluído graças à doação de George Harris, o guitarrista dos Beatles e fã número 1 do grupo. Mesmo assim, a produção do filme foi pobrinha, pobrinha. O que não os impediu de fazer uma comédia memorável. Os caras fazem sátira deles mesmos. Ou então, o que dizer de quando um dos personagens vira pra um castelo monumental, ao longe, no horizonte, e exclama: “bah, é só uma maquete”. Mesmo sendo escrachada e inteligentemente idiota, eu duvido que “Cálice” (ou qualquer outro filme dos Pythons) agrade à grande parte da nova geração. Isso porque o filme contém um ritmo todo peculiar, bem britânico mesmo. Bom, mesmo quem não tenha paciência pra vê-lo do começo ao fim, deveria pelo menos conferir as melhores gags. Por exemplo, quando um monstro gigante em animação começa a perseguir os nossos heróis e, de repente, desaparece. O que aconteceu? O cartunista teve um infarto e parou de desenhar. Outro momento divertido é o da ponte, em que cada pessoa deve responder a três “complicadas” perguntas para ganhar permissão para atravessá-la. O primeiro destemido cavaleiro se aproxima para tentar responder às questões: qual o seu nome, de onde você veio e... qual a sua cor favorita? Dá pra não gargalhar? E o coelho assassino, então? Essa é provavelmente a cena mais antológica, junto com aquela em que um cavaleiro entra num palácio matando tudo o que ele vê pela frente. Inocente ou não, ele vai matando. Sem contar o final, que a gente nunca vai ver igual em toda a nossa existência. Mas a minha piada preferida é, sem dúvida nenhuma, a do cavaleiro negro. Arthur começa a lutar com ele e arranca-lhe o braço. O cavaleiro argumenta que foi apenas um arranhão, e quer continuar lutando. O seu outro braço lhe é arrancado, seguido pelas duas pernas. Mesmo sendo apenas um cotoco de gente, ele ainda quer lutar, e chama Arthur de covarde por não terminar a batalha até o fim. Arthur pergunta ao cavaleiro, já sem mãos ou pés: “o que você pode fazer? Sangrar em mim?”. Humor negro e nonsense em um único seguimento de uns 5 minutos. É por essa sequência que Cálice Sagrado é mais lembrado. E por muitas outras.

O segundo filme da gangue não fica nenhum pouco atrás do primeiro (aliás, deve ser o meu favorito, mas não tenho certeza). Em A Vida de Brian, que esse ano completa 30 de existência, todas as piadas sem-noção, às vezes bestas e sempre engraçadas que marcaram o primeiro filme estão de volta, mas aqui a ousadia do grupo chega a ser assustadora. Pra quem chama qualquer filme que apresente a igreja como corrupta (oh, que novidade!) de polêmico, pff, vejam A Vida de Brian. O filme conta a história, claro, de Brian, que dá o azar de nascer no mesmo dia que... Jesus. O início é de uma genialidade imbatível. Nele vemos os três reis magos indo levar presentes pro messias que acaba de nascer. Eles chegam à manjedoura de Brian e oferecem à sua mãe presentes como ouro e mirra. “Mirra?”, pergunta a senhora. Uma brincadeira dos Phytons com a ideia de que nem os cristãos sabem direito o que é mirra. Em seguida, os reis descobrem que caíram no lugar errado. Tiram os presentes do Brian e levam, agora sim, ao messias, que acaba de nascer logo ao lado. A câmera sai da casinha simples onde o falso-messias nasceu e se dirige ao berço de Jesus, que mais parece um enfeite de natal: brilhante, colorido, iluminado, divino. Haha, ótimo! Mais de 30 anos se passam e agora sim o grupo arregaça as mangas pra nos fazer rir com várias sátiras ao cristianismo. A igreja deve ficar ultrajada, mas o que ela pode fazer? Criar um boicote, o que só iria arredar mais pessoas pro cinema? Nháá. Entre as melhores piadas, há um momento em que o filme brinca com o pecado da blasfêmia, de dizer o nome do todo-poderoso em vão. Um grupo de mulheres disfarçadas de homens (já que mulheres não entram) vai a um apedrejamento. O apedrejado da vez, ao dizer “Jeová”, é reprimido pelo soldado que organiza a punição. A vítima diz: “ué, eu já vou morrer mesmo. O que mais pode acontecer comigo?”, e segue com a blasfêmia. O mais engraçado é que, lá pelas tantas, o próprio soldado, sem querer, solta “Jeová”, e as mulheres caem dentro: o apedrejam. A sequência que mais me faz rir é também uma das mais simples. Um grupo de subversivos judeus se esconde numa casa, já que os soldados romanos estão vindo prendê-los. Os esconderijos deles são os mais estapafúrdios: em baixo da cama, atrás da cortina, debaixo de um pano... Bem aqueles lugares onde a gente se escondia quando brincava de esconde-esconde, sabem? Daí mais de uma dezena de soldados entra no quarto, marchando. Um atrás do outro, um batalhão mesmo. Depois de alguns segundos eles saem, alegando pro general: “não encontramos nada”.

Há uma crítica muitíssimo forte à religião, mas, claro, do jeitinho Python de ser. Por exemplo, quando Brian começa a ser seguido por várias pessoas que pensam que ele é o messias, sua sandália sem querer cai no chão. Os seguidores já criam milhares de interpretações pra sandália que caiu em terra. “Temos que tirar nossos calçados também!”. Quando Brian, cansado de ser perseguido, manda todos “fuck you”, alguém pergunta, depois de um longo silêncio: “como a gente faz isso, Lord?”. A mensagem pode ser resumida em uma frase do filme, e certamente faz doer os tímpanos dos mais religiosos: “Vocês não devem seguir ninguém. Somos todos indivíduos”. Um único homem que parece estar em sã consciência não crê que Brian seja o messias. E todos os outros: “Herege! Matem-no!”. Oi? Soa familiar pra você também? O filme não poderia terminar de forma melhor: com um número musical, um dos fortes dos Pythons. Nessa sequência antológica, uma porção de homens pregados em cruzes canta uma canção que quase nos obriga a classificar A Vida de Brian como sendo um feel good movie. O refrão diz: “Veja sempre o lado positivo da vida/o lado bom da vida”. E ainda: “Veio do pó e ao pó retornará. O que tem a perder?”. Enquanto a gente balança os nossos pés inquietos com uma melodia que não vai sair de nossas cabeças por alguns dias, uma narração nos faz a propaganda do CD, alegando que o lucro é necessário. É o espírito Monty Phyton.

O último longa da equipe é o único que contou com um orçamento bem razoável que os permitiu avançar bastante, tecnicamente falando (ta lá o homem gordo que explode que não me deixa mentir). A comédia de 83 é considerada pelos críticos e fãs como a mais fraquinha do grupo, mas, se querem saber, eu adoro. É verdade que, por ser um filme com várias esquetes com pouca relação entre si, ele fica bem irregular. Alguns momentos funcionam muito melhores do que outros, e tem quem sinta falta de uma linha de história mais concreta. Apesar de agora poder dizer com bastante certeza que sou fã dos Pythons, concordo que o humor deles não é, hum, pra todos os humores. Da primeira vez que fui tentar ver O Sentido da Vida, há mais de um ano, acho que não estava no clima. Vi pelas metades, não me agradou. Hoje eu acho um máximo, rio de monte. Talvez eu tenha amadurecido também, não sei. Aqui há um dos melhores diálogos da gangue, que explica o sentido das guerras: “O sentido da vida é uma luta entre pontos de vista alternativos da própria vida. Sem a habilidade para defender seu próprio ponto de vista contra outras ideologias talvez mais agressivas, a racionalidade e a moderação podem desaparecer totalmente”. E se os católicos misericordiosos já mandavam todos os Pyhtons arderem no fogo eterno do inferno desde A Vida de Brian, foi com O Sentido da Vida que o grupo garantiu sua estadia no lar dos pecadores de vez. Logo no começo somos apresentados a um casal pobre e católico que tem dezenas de filhos. Enquanto a mãe cozinha, em pé, um bebê, ahn, nasce, e ela exclama algo como: “pega o seu irmão pra mim aí no chão”. O pai começa a cantar uma melodia e logo é acompanhado pelo batalhão de filhos. O nome da canção é “Todo Esperma é Sagrado”, e fala sobre como Deus não perdoa que um esperma seja desperdiçado. O pai decide então doar seus filhos para estudos científicos. No melhor estilo “canta que eu canto”, de musicais mesmo, todas as pessoas da rua seguem a família: “não desperdice o esperma”. Im-pa-gá-vel. Opa, agora que eu já fiz um bem a mim eu mesmo de ver essas três pérolas devidamente vistas, por que vocês não fazem o mesmo? Parafraseando a musiquinha de A Vida de Brian (é minha nova canção de cabeceira, daquelas pra se ouvir quando um carro passa numa poça de água na rua e te molha, logo depois que um pombo deixou um presente na sua cabeça): o que tens a perder?

Veja o lado positivo dessa situação

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

OS 100 MELHORES FILMES DA DÉCADA

O primeiríssimo lugar é de – pasmem – Caché (2005)

Pra quem achava que essa década que se encerra agora, junto com a de 1990, era a década perdida, saibam que não é bem assim, que ainda há esperanças. O Asnalfa pediu pra eu comentar essa lista que o Times inglês fez elegendo os 100 melhores filmes da década de 2000. É óbvio que nenhum apanhado desses agrada a todos completamente, porque cada pessoa tem um gosto diferente. Mas se espera de uma lista assim o mínimo de bom senso. Essa daqui teve, e acho que ela conseguiu encontrar um bom equilíbrio. Fora que o site da revista abriu um espaço pro pessoal comentar e, quem sabe, montar suas próprias listas. Ou seja, não é unânime. Esses não são os melhores da década e ponto, sem mais. Eu mesmo pensei em fazer um apanhado próprio, mas não sou bom com listas... Então, pra começar, vejam os 20 primeiros lugares:

1 – Caché
2 – A Supremacia Bourne/O Ultimato Bourne
3 – Onde os Fracos Não Têm Vez
4 – O Homem-Urso
5 – Team America
6 – Quem Quer Ser um Milionário?
7 – O Último Rei da Escócia
8 – Cassino Royale
9 – A Rainha
10 – Hunger
11 – Borat
12 – A Vida dos Outros
13 – This is England
14 – 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
15 – A Queda
16 – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças
17 – O Segredo de Brokeback Mountain
18 – Deixa Ela Entrar
19 – Vôo United 93
20 – Donnie Darko

É ótimo que a lista inclua filmes de vários países diferentes. Eu mesmo, confesso que nunca ouvi falar de uma porção desses 100 longas. Da pra sacar de cara que esta não é uma lista feita por americanos quando miramos no primeiro colocado, Caché, um estranhíssimo filme do Michael Haneke. Adoro Caché, adoro Haneke e adorei a sua inclusão em primeiro lugar. Em uma lista “comum”, um filme sobre uma família que começa a receber ameaças em vídeo de um estranho que, até o final, nós não descobriremos quem é, porque é o que menos importa, jamais seria incluído entre os primeiros. O Times faz jus ao Haneke, e também marcou a presença de outro excelente filme seu, A Professora de Piano (85º lugar). Antes que alguém reclame da ausência de Violência Gratuita (Funny Games), saibam que a maior obra-prima do cara é de 97. Pra mim dava muito bem pra incluir seu filme mais recente, o ganhador do Palma de Ouro desse ano, A Fita Branca, que eu vi na Mostra de São Paulo e achei um máximo. Vamos torcer pra ele entrar em circuito em boa parte do Brasil, o que, infelizmente, eu duvido que aconteça. Se “Fita” não chegar à sua cidade, por menor que ela seja, esperneie. Ok, pra mim é fácil falar, já que moro em SP. Mas só a idéia de eu não poder ver o último do Almodóvar, por exemplo, na tela grande, ugh!, me dá arrepios.

Juro que achei que iria morrer sem ver O Cavaleiro das Trevas (43º) e Irreversível (30º) numa mesma lista. Só com bastante coragem pra incluir dois filmes tão diferentes num único apanhado, né? Sobre Cavaleiro, acho que ninguém tem alguma incerteza sobre o quão ótimo ele é. O Times ainda coloca um outro filme do Christopher Nolan (Amnésia, 68º lugar), diretor que prova que dá pra ser comercial sem deixar de fazer arte. Eu ainda incluiria pelo menos mais um, O Grande Truque. Agora, sobre Irreversível, eu concordo com quem o traduz como “uma experiência”. Nessa experiência do Gaspar Noé, acompanhamos uma história sobre violência contada de trás pra frente. Assim: começa do fim e vai voltando, até compreendermos quais motivos levaram ao começo, digo, ao desfecho. Violentíssimo, o filme contém a cena de estupro mais chocante de toda a história. Mas não é por isso que ele é considerado uma obra-prima, lógico. É por seu estilo inovador (que não agradará a todos) e por sua mensagem contundente. Vejam, se ainda não viram (quero escrever um texto todinho pra ele, mais pra frente). Enfim, gostei tanto dessa lista que já anotei na minha listinha de “para assistir” vários aqui presentes que eu ainda não tive a chance de ver.

Gostei da inclusão do cultuado Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que melhora a cada dia. E, tem quem deteste o Spielberg mais descaradamente comercial, mas eu adoro Minority Report (26º). Bem mais do que A.I., por exemplo. O filme mais recente da lista deve ser mesmo o terror sueco Deixa Ela Entrar, que eu ainda não tive a chance de ver, mas tenho ouvido muitos elogios. Esse ainda está em exibição em algumas salas do Rio e de São Paulo, se não me engano. Da primeira vez que passei o olho na lista não vi Pequena Miss Sunshine, e perdi o respeito por ela no ato. Mas daí, depois, olhando de novo com mais calma, lá estava o feel good movie da década, em 48º lugar. Pra mim merecia uma posição melhor, mas tudo bem. Até Ligeiramente Grávidos (49º) tem lugar. E eu que pensei que era o único que considerava essa comédia uma das melhores dos últimos tempos. O nosso cinema também ta na lista, muito bem representado por Cidade de Deus (66º). O Fernando Meirelles aparece mais uma vez com O Jardineiro Fiel, na 52ª colocação (o belo e significativo Hotel Ruanda também ta aqui, em 84º lugar, e, felizmente, não incluíram Diamante de Sangue – mais um motivo pra crermos que não houve dedo americano na lista). Por mim dava pra colocar o terceiro grande filme seguido do F. Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira, mas to sabendo que poucos igualam seu último trabalho ao mesmo patamar dos anteriores. Ainda sobre o cinema nacional, eu incluiria outros filmes além de Cidade. Lavoura Arcaica, por exemplo, não é pra todos os gostos, mas acho que deveria estar aí. Talvez Abril Despedaçado e Saneamento Básico (esse último não deve ter tido tanta repercussão quanto os outros, mas tenho um carinho especial por essa comédia por ela me matar de rir). O cinema de animação também está muito bem representado por A Viagem de Chihiro (61º), Procurando Nemo (34º), Monstros S.A. (71º) e, um pouco menos, Os Incríveis, em 42º (ainda não vi Persépolis – em 69º lugar – mas ele já está naquela minha listinha). Opa, e Ratatouille, cadê? Não conta que essa animação magnífica leva às lágrimas até os mais durões, não? Almodóvar, óbvio, está presente, com Fale com Ela (75º) e Volver (56º). Pra mim o filme que mais falta na lista é, de longe, Má Educação. E o cinema mexicano ta com tudo. O ótimo E Sua Mãe Também (35º) tem toda a pinta de um filme que vai crescer com o tempo. Aliás, já está crescendo. Se eu fosse mudar alguma coisa na ordem da lista, colocaria o soberbo Amores Brutos (95ª colocação) entre os cinco primeiros, no mínimo. E parece que pouca gente considera O Nevoeiro o melhor terror dos últimos dez anos, como eu considero (se bem que tenho dúvidas se O Labirinto do Fauno – 74ª – pode se encaixar nesse gênero). E, dos que vi, acho que eu só não entendi bem a inclusão de Penetras Bons de Bico (90º). Ahn, jura? E, gosto de O Diabo Veste Prada (100º), mas não sei se ele teria lugar numa lista minha. Em compensação, alguns filmes parecem ter sido esquecidos: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (achei estranho a não-presença deste cultuado e belo filme, porque poucas vezes conheci alguém que não gostasse dele. Sempre digo que o melhor DVD pra se dar de presente é Amélie, porque as chances do presenteado amá-lo são altas), Mar Adentro, Adeus, Lênin!, Réquiem para um Sonho, Foi Apenas um Sonho (só eu amo amo amo essa obra-prima?), Senhores do Crime, O Pianista (esse eu não sou o único que ama ama ama, então, ahn, esqueceram mesmo?) e, por que não, Mundo Cão. E se Dançando no Escuro (25º) merecidamente está na lista, por mim dava pra incluir outros do Lars von Trier, como Dogville. Anticristo? Hummm, talvez. É cedo ainda, e o pessoal (eu me incluo aqui) não teve tempo pra digerir sua última (e polêmica, pra variar) obra por completo. Senti falta de musicais na lista. Eu incluiria pelo menos Sweeney Todd e Moulin Rouge (que eu jurava que era de 99, mas descobri que é de 2001). Chicago, Haisrpary e Across the Universe são três que eu adoro, mas que estão longe de atingir unanimidade. Aliás, o último, Across, é um raro exemplo de filme ao qual quase toda a crítica especializada detesta, enquanto boa parte do público adora. Estranho, né? Ainda dava pra apertar e colocar Peixe Grande e Desejo e Reparação, não dava? Kill Bill também (de preferência o volume 1), e, talvez esteja cedo, mas Bastardos Inglórios não é um máximo? Só que o que eu mais senti falta (depois de La Mala Educación), é Match Point. Não é possível que eu seja o único que considere esse um dos melhores trabalhos do Woody Allen. Fora que Ponto Final marca a saída do Woody de Nova Iorque, seu cenário habitual, e sua entrada cinematográfica na Europa. MP é o primeiro de quatro trabalhos consecutivos fora de NY, o que só aumenta minha curiosidade sobre a sua não-participação na lista. Os americanos odeiam o Woody, eu sei, mas os ingleses não o amam, assim como os brasileiros (a última parte foi apenas uma convicção de minha mente esperançosa)? Mas, eu sei, eu sei, é concorrido. Não tem espaço pra todo mundo. De todo modo, eu gostei. Minha lista de filmes para ver com urgência só aumentou depois que vi essa. Listas geram listas, como se vê.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

LUA NOVA – Entre lobos e vampiros, ela decide

Lá vem o do contra de novo. Eu. Vocês vão torcer o nariz pra mim mais uma vez, mas confesso que adorei Lua Nova, a sequência do romance adolescente Crepúsculo, que eu já tinha gostado. Ok, já podem me matar. Mas antes, rapidinho, deixem eu me explicar. Bom, primeiro, li todos os livros da série, mas não me considero fã. Na realidade, acho que a autora, Stephenie Meyer, como bem disse a Katyuscia, quis esticar demais a trama. Ela teve uma boa ideia, mas, 4 livros? Uma hora se esgota. E se esgotou. Gostei muito dos dois primeiros best-sellers, bem menos dos dois últimos. Assim como aconteceu na obra escrita, creio que os próximos filmes, se forem tão fiéis ao livro como foram os anteriores, vão começar a ficar repetitivos. Ah, e nem venham me perguntar se gosto mais dos filmes dos vampirinhos ou o dos bruxinhos, porque é covardia. É óbvio que Harry Potter é muito mais bem elaborado e divertido. Pô, a J.K. Rowling criou um mundo mágico (meldeus, já gastei minha cota de clichês por hoje). Mas o que eu mais gosto na obra dos sanguessugas não tem, nem em sonho, na dos bruxinhos: a tensão sexual (isso é uma constante em histórias de vampiros ou é impressão? Em Entrevista com o Vampiro existia um algo a mais entre o Tom Cruise e o Brad Pitt, não dá pra negar). Ahn, ta, em alguns Harry Potters até rolam uns beijinhos, mas não dá pra comparar. Opa, me precipitei. Lua Nova começa sem enrolação ou flashbacks, logo em seguida ao fim do primeiro filme. Bella faz aniversário, o que não é, pra ela, um dia propriamente feliz, já que a cada ano que passa ela fica mais velha que seu imortal namorado vampiro. Daí, no dia da festinha com os irmãos pálidos de seu amor, Bella corta o dedo num papel e quase faz com que um dos vampiros, que perdem o controle com sangue, voasse em seu pescocinho apetitoso. Depois disso, com receio de estar sempre colocando sua amada em perigo, Edward vai embora da cidadezinha, deixando Bella pra trás, com um “vazio no peito”, como ela mesma diz. As coisas só começam a melhorar quando entra um lobisomem na jogada.

Em relação ao primeiro filme, esse daqui melhorou consideravelmente na parte técnica. Os efeitos especiais não mais parecem daqueles telefilmes baratos (o que não significa que os lobinhos gerados por computador sejam menos parecidos com efeitos gerados por computador) e a maquiadora dos cara-pálidas colocou uma meta em sua vida: deixá-los brancos por igual durante todo o filme. A palidez não mais varia de tom, e a gente pode se concentrar mais na história ao invés de ficar se perguntando por que será que aquele vampiro ta mais moreninho que o outro. E a pior parte do primeiro filme, o final, quando ele tenta acrescentar uma lutinhas vampirescas totalmente anti-clímax, está muitíssimo melhor aqui. As cenas na Itália com a realeza dos vampiros (e com participações especiais do Michael Sheen e da Dakota Fanning) ficaram boas (bem melhores do que no livro), e, pelo menos, são rápidas. Só que, ainda assim, as sequências de ação não são o forte da série, como já deu pra notar. Mas tudo isso pouco importa. O mais legal de Crepúsculo é a história de amor meio proibida entre a humana e o vampiro. Vocês podem atacar dizendo que a gente já viu isso de amor impossível uma porção de vezes. E é verdade. Mas, numa coisa temos que concordar: poucas vezes essa história de amor tem também um forte cunho sexual. Quer dizer, os dois se amam e blá blá, mas eles também se desejam. Ela mais do que ele! Em quantos filmes adolescentes você já viu uma garota que não seja constantemente xingada de “vadia” e que não só pensa, como também quer sexo? Hummm, vamos pensar... O melhor da saga Crepúsculo é o modo como a personagem feminina foge do clichê, do esperado. Tudo bem, tem aquilo de a mulher estar sempre em perigo, mas, nesse caso, é totalmente compreensível. Pô, a menina vive entre vampiros que querem beber seu sangue e lobisomens propensos a esfolar seu rosto. Como ela não estaria em perigo?! A diferença é que não é sempre o macho herói da história que a salva. Na realidade, uma das irmãs vampiro aparece aqui sendo mais heroína do que o tal Edward. Esse não é sempre exaltado, como se espera. Seu personagem é o que mais comete burrices, além de parecer bem inseguro. Ao contrário da Bella, que sabe o que quer e ponto. Esse tipo de personagem feminina é tão, mas tão raro, que quando pipoca um eu fico todo feliz. Ou alguém ainda aguenta uma Julieta indefesa que depende e que faz tudo o que seu Romeu quer?

Fora que a Bella, ao ser abandonada por seu sanguessuga, apesar de no começo ter meio que parado de viver, logo parte pra outro. O filme mostra a relação dela com o lobisomem inicialmente como apenas amizade, mas é claro que ele não vai terminar antes que algo mais aconteça. Fica claro que a Bella ama e deseja o vampirinho, e, quanto ao lobo, esse ela só deseja. E não esconde. “Até que você é bonito”, ela diz. É um romance erótico, e não é necessário ser uma menina passando pela puberdade pra gostar dele, como os críticos andam dizendo. Aliás, esses críticos me fazem rir alto às vezes. É sério. Eles falam de, sei lá, de Watchmen, com todo o amor, e dizem, com orgulho: os nerds de plantão vão adorar! Enquanto isso eles se referem a Lua Nova desse jeito: as menininhas que fantasiam-se ao lado do vampiro devem gostar, mas nós, críticos inteligentes e homens super viris, não podemos levar esse filminho a sério. Ok, talvez não necessariamente com essas palavras. Opa, antes que alguém venha reclamar: não to comparando Watchmen com Lua Nova, até porque, o que há pra comparar? To querendo dizer que esses críticos parecem banalizar demais a sexualidade de uma garota. Em Um Bonde Chamado Desejo, só pra citar um exemplo, as personagens da Vivien Leigh e da Kim Hunter morriam de tesão pelo do Marlon Brando. Perguntem pra esses críticos se eles não gostam desse clássico. É óbvio que não dá pra igualar o erotismo adulto e complexo de um “Bonde” com o de um Lua Nova, mas em 51 várias mulheres iam ao cinema pra babar pelo Brando de camiseta (item muito incomum nos guarda-roupas da época), e nem por isso este ficou conhecido como “filme de mulheres”. No meu caso, prefiro uma história de amor e desejo proibido do que um monte de naves espaciais se explodindo nos ares. E eu sou homem. Dizer que a saga dos vampiros é pra menina é a mesma coisa que dizer que Star Wars é coisa de meninos. Homens vestem azul, mulheres, rosa, sabem? Balela. Em uma cena de Lua Nova, um garoto convida Bella pra ir ao cinema, dizendo que ta passando uma comédia romântica que parece legal. No que ela retruca: “comédia romântica? Você não quer ver ‘Soco na Cara’, aquele filme de ação?”. To pagando pra ver uma personagem adolescente feminina que fuja mais do padrão de “personagem adolescente feminina”. Aqui to citando só as coisas que me agradaram, porque, com todo respeito a quem não gosta da saga, mas vocês não acham que já ta virando moda esculachá-la, não? Vários diálogos são meio vergonhosos, os dois atores que completam o triângulo amoroso são bem ruizinhos, cheios de caras e bocas, e, além disso, algumas cenas soam repetitivas demais. Mas isso tudo todo mundo já ta cansado de ouvir. Acho graça que pouca gente cite seus pontos positivos. Pra mim o principal deles é a originalidade ao tratar de um tema tabu, ou, pelo menos, tabu pra temporada de filmes do verão americano. Corrijam-me se eu estiver errado, mas “filmes adolescentes” (entre aspas, porque é uma expressão que não gosto muito de usar, já que nunca tenho certeza sobre quais filmes posso classificar assim) que tratam de sexo, só se for no sentido de ridicularizarão, tipo American Pie. Por isso que, pra mim, Lua Nova é significante sim. Ah, gente, não dá pra negar: toda a série é basicamente sobre sexo, só não enxerga quem não quer. E, não, eu não o classifico assim porque aparecem alguns galãs fortinhos sem camisa. Ou se não, vejamos, a gente pode classificar Transformers do mesmo modo só porque a super sexy Megan Fox está presente nele em ângulos desconcertantes? Claro que não (se querem um filme sobre a relação sexual de um cara com seu carro, vão de Christine, aquele trash do John Carpenter). O filme anterior dos vampiros, se não me falha a memória, não continha nenhum cara sem camisa, e ele transbordava translação de desejo pelo ar, mais até do que esse. Não são as imagens necessariamente que classificam um filme como com forte calibre sexual, mas o clima. Os olhares. A Kristen Stewart (ótima atriz de O Silêncio de Melinda, O Quarto do Pânico e Na Natureza Selvagem, além de linda demais!) entende as aspirações de sua personagem, já que quase come seu parceiro pálido com os olhos. E tudo fica ainda mais interessante quando nos lembramos que o máximo que eles podem fazer é isso, se desejarem profundamente pelo olhar, já que ambos não podem ficar muito perto um do outro, não podem ter muito contato. O cheiro do sangue dela é quase irresistível pra ele, e, bem, pra evitar uma catástrofe... apenas alguns beijinhos, e apenas bem rapidinho. O primeiro beijo deles, no primeiro filme, esbanjava tensão. Hipoteticamente falando, é quase como se eu me apaixonasse por uma garota feita de chocolate. Assim, meu amor por ela teria que ser muito, mas muito forte pra eu não comê-la (não existe duplo sentido nessa frase. É coisa da mente de vocês).

Ah, e se alguém quer outros motivos pra eu considerar a Bella o oposto do que Hollywood pintou até aqui de moça-de-17-anos (assim como a personagem da Lauren Ambrose em Six Feet Under, se bem que eu não tenho certeza se ela conta, já que todos os personagens da minha série favorita são inusitados), aqui está: ela odeia comemorações, odeia chamar a atenção, não quer de jeito nenhum ser popular e – pasmem – detesta fazer compras. Algo na minha cultura cinematográfica me ensinou que o melhor amigo das mulheres são os cartões de crédito. Até personagens femininas inocentes tipo Disney, como a da Amy Adams em Encantada, se entregam ao encanto (péssimo) do shopping. Só que, mesmo depois de tudo isso, ainda tem quem considere Lua Nova extremamente machista. Qual o argumento desse pessoal? Dizem que a Bella mais parece um prêmio a ser disputado por dois homens. Gente, a Bella tem seus momentos de indecisão, é claro, mas, em grande parte do tempo ela sabe exatamente o que quer. Não importa que o lobisomem babe por ela, porque ela ama o vampirinho, e é ele que ela quer. Vocês podem achar o contrário, mas pra mim quem tem total controle sobre o triângulo amoroso/sexual é ela. Os dois esquisitões estão na palma da sua mão. E esse é o motivo de Crepúsculo ser um sucesso principalmente entre o público feminino. Elas estão cansadas de lerem/verem personagens que, mesmo sendo as protagonistas de suas próprias histórias, estejam sempre imparciais a tudo. Sempre passivas, esperando pelo destino. Quando surge uma personagem que diz pra um de seus amores “não me faça ter que escolher, porque a minha escolha não será você”, o público sente a diferença. E se esbalda. O pessoal da sessão em que eu estava gritava e vibrava em todas as cenas em que acrescentava-se brasa ao fogo da paixão. Provavelmente serei xingado, mas entre ouvir homens (e mulheres também, infelizmente) gargalhando nervosamente com piadas preconceituosas de filmes como Se Beber, Não Case, ou ouvir pré-adolescentes suspirando por um filme onde a personagem tem total controle sobre dois galãs, eu fico com o segundo. Críticos nerds que me perdoem, mas as mulheres aguentam conferir filmes em que elas são as vilãs ridicularizadas, então vocês que aguentem a contrário, dessa vez. Tem alguma coisa a ver esses críticos serem todos homens que não suportam ver uma mulher como pivô de um relacionamento sexual? Nháá, deve ser só coincidência.

sábado, 21 de novembro de 2009

2012 – É o fim

Aventura em família

Mesmo vindo recebendo péssimas críticas, fui ver 2012 porque adoro um (bom) filme catástrofe (de preferência apocalíptico), porque gosto pacas de O Dia Depois de Amanhã, um dos últimos filmes do diretor Roland Emmerich (o anterior, 10.000 a.C., eu não tive coragem de ver – o trailer me deu medo), e porque, ahn... eu estava em casa vegetando e me deu vontade de ir ao cinema. Pensei: “minhas opções são ficar aqui e não fazer nada ou ir ao cinema ver o fim do mundo mais uma vez”. Ignore minha última ironia, porque eu tava com vontade de ver 2012 sim. E tava gostando um pouquinho dele até mais ou menos a metade, quando a cadeira do cinema pareceu ter magicamente se transformado numa moita de espinhos. A gente sente a duração do filme, e como sente... Perguntei aos meus botões: “quantos minutos tem isso, 2012?” (trocadilho infame número 1). Mas tudo que é ruim pode piorar. Quando 2012 entra em sua pior parte, o ato final, um pai sentado na cadeira ao lado da minha resolveu começar a explicar pro filhinho de uns 9 anos tudo o que tava acontecendo na telona. Tipo assim, algum personagem falava “temos 28 minutos”, e o papai comentava para seu rebento: “ta vendo, faltam 28 minutos, entendeu?”. Nessa hora eu torci pro garotinho dizer “pai, eu não sou burro, hello!”. Mas daí me lembrei que eu não fazia parte de um filme de Hollywood, onde as crianças nascem mini-gênios com respostas prontas como essa na ponta da língua. Foi uma constatação meio arrasadora, mas acho que já superei.

O que eu ainda não superei, não consegui esquecer, é o final de 2012, quando a maionese desanda de vez. Também, vi o troço há menos de 3 horas, se eu tivesse esquecido marcaria agora mesmo uma consulta com o Dr. House. Então, vamos a uma sinopse simples. 2012 é sobre, ahm... hum.... esqueci. Calminha, é brincadeira. Bem simples: uns cientistas descobrem que o fim do mundo acontecerá em dezembro de 2012, coisa que os maias já tinham previsto. Eu já era fã dessa civilização desde que descobri que foram eles os inventores de um dos itens mais fundamentais em nossa existência – o chocolate. Enfim, pra garantir a sobrevivência à catástrofe, o governo de vários países ricos constroem uma espécie de nave (que a gente descobre como funciona só lá pelas tantas), onde alguns da espécie humana vão se abrigar, a fim de, depois do fim, procriar a espécie. Só que não é qualquer um que tem passagem garantida na nave, óbvio. São apenas os bilionários, suas famílias, seus animais de estimação, e... o John Cusack. Entendam, uma produção dessas precisa de um astro pra garantir o nome no cartaz. Ih, olha eu falando como se tivesse detestado a produção. Não detestei. Mas não existem dúvidas de que poderia ser melhor. Essa trama de “apenas os ricos tem passagem”, por exemplo, é bacana, e é uma pena que se conclua com um discursinho tão piegas.

Pra mim falta um pouco de tensão-pré-catástrofe. Tipo assim, imagine que você acaba de descobrir que o fim (do mundo, bem entendido) está próximo. O que você faria? Dava muito bem pra desenvolver esse lado do medo psicológico antes do “adeus, terra!”. Mas a população só descobre que o fim chegou quando, ahn... o fim chega. Ou seja, muitos efeitos especiais, pouco desenvolvimento de personagens. Aham, como se eu estivesse esperando algo diferente de um filme que custou mais do que o PIB de alguns países, juntos. Outra coisa que eu adoro em filmes apocalípticos, e que faltou aqui, é a discordância de opinião, o embate de pessoas com pensamentos diferentes. Sabem como em Os Pássaros alguns integrantes da cidadezinha se juntam num café e discutem o que, pra eles, causou o ataque dos piu-pius? É por isso que eu gostei tanto de O Nevoeiro: pessoas diferentes, com pensamentos diferentes, ideias diferentes e reações diferentes se juntam num supermercado, quando se deparam com o que parece ser o apocalipse. Fala sério, esses embates não são muito mais legais do que todos aqueles efeitos especiais? Poxa, em 2012 nem o lado religioso é desenvolvido. Onde estão as pessoas mostrando que aquilo tudo já estava previsto na bíblia, por exemplo? As únicas reações que vemos sobre o fim são as do governo americano e as da família chata do John Cusack. Pelamordedeus. No único momento em que um bando de pessoas se reúne, não há tempo pra conversar. Isso porque a ação não pára! Os efeitos são muito bons, mas cadê o resto? Ah, e quem for conferir pra ver a destruição do Rio de Janeiro, vai se decepcionar. Depois não digam que eu não avisei.

Por “desenvolvimento dos personagens” que citei acima, entendam que eu quero algo novo, instigante. Porque, se é pra mostrar pela enésima vez como o pai ausente passa a amar seus filhos depois que um terremoto balança a relação deles, não, obrigado, não precisa. Sério, quando o John Cusack ameaça fazer um discurso do tipo pai dedicado, eu quase gritei: “matem alguns figurantes, por favor!”. Se bem que a pior cena nem é essa. O momento mais constrangedor, o mais arght! blerght!, acontece quando o destino da raça humana depende do protagonista. Aí, já viu, né? São nesses momentos de extrema emergência que os patetas decidem se declarar uns para os outros. Teve uma hora que, no meio do caos, o John Cusack decide dar uns beijinhos na Amanda Peet, sua ex-mulher. Eu fiz coro: “onda gigante, terremoto, furacão, olê-olê-olá”. Nunca mais reclamo do exagero de efeitos especiais se os produtores de Hollywood me prometerem parar de incluir essas traminhas clichês. Mãe-que-se-separa-de-pai-e-que-se-casa-com-um-palerma-qualquer-que vai-morrer-antes-do-fim-pros-pombinhos-voltarem-a-ficar-juntos-com-os-filhos-para-toda-a-eternidade-e-além. Eu encaro Transformers 2 de novo no lugar de ver mais uma relação de personagens sem sal e repetitiva como essa. Oi? Como se atreve? Quem citou o nome do filme dos carrinhos em vão? Eu disse que posso pensar em rever “o dos robôs” em caso de vida ou morte, mas Speed Ra... digo, “aquele que não podemos mencionar”, aí é covardia. Eu topo ouvir o monólogo do pai exemplar por 2012 horas (trocadilho infame número 2), mas o dos carrinhos é coringa. Vocês sabem disso. Falam só pra me provocar. Estão pior do que meu amiguinho, que ameaçou me dar o DVD do Speed de presente de aniversário. Mas só ameaçou, que ele não é bobo e preza por seu bem estar.

Me desviei. Voltando pras (inexistência das) relações humanas. Aqui existe o item-perigo num filme catástrofe, muitíssimo utilizado pra cativar o público. São... as crianças. Criança em superprodução de Hollywood é fogo. A gente sabe desde o começo que elas não vão morrer ou sofrer algum arranhão, e são, na maioria das vezes, bem insuportáveis. As daqui não chegam aos pés do garotinho (filho do Will Smith) do remake de O Dia em Que a Terra Parou, em termos de chatice. Eu sei, sou uma pessoa muito cruel e tal, já me falaram isso... Mas, defensores dos guris, me respondam, qual a utilidade deles na trama? Em O Dia Depois de Amanhã, não sei se vocês lembram, mas havia uma certa tensão sexual que se encaixava de forma interessante na trama, entre o Jake Gyllenhaal e a Emmy Rossum. Aqui o modo infantilóide favorito de se fazer cinema volta com tudo. Se bem que eu gostei de alguns dos toques de humor. A moça que vai buscar seu cachorro em perigo, por exemplo, ah, ficou legal. Serve pra nos lembrar de que não devemos levar aquilo tudo tão a sério, afinal. Essa foi a cena que mais fez o cinema vibrar, juro. Ah, e pra vocês não terminarem de ler e acharem minha crônica de uma inutilidade total, aqui vão algumas informações que os críticos de cinema adoram dar a seus leitores: o filme vem fazendo grana ao redor do mundo. Muita. Mas, também, o troço foi caro pra ser feito. Só não sei se eles gastaram mais com o filme em si ou com a publicidade. Aqui em São Paulo, pelo menos, ta cheio de cartazes dele pra todo lado. Uma amiga minha disse que, pra ela, o apagão que ocorreu em boa parte do Brasil na semana retrasada foi, na verdade, um ato pra divulgar o novo arrasa-quarteirões americano. Eu tentei achar um tom de ironia na constatação dela, mas, juro, não tinha. Ela falava sério. Tentei divagar comigo eu mesmo sobre quanto custaria pros produtores acabarem com a luz do Brasil por algumas horas. Daí me lembrei que 2012 custou 260 milhões de verdinhas, e achei a ideia dela (um pouco) plausível. Ta, não. Mas com esse orçamento dava pra destruir (a rede elétrica de) uns cinco países de terceiro mundo, não? No mínimo?

Agora, uma surpresa pra vocês, depois de tudo o que falei: não achei 2012 uma total catástrofe (trocadilho infame número... ih, perdi a conta). Podem querer me matar, mas eu me diverti em alguns momentos. Virei uma pipoca saltitante na cadeira em outros, é verdade. Mas, até o ato final, 2012 presta como entretenimento. Assim que o filme entra em uma etapa que nos faz lembrar de O Destino de Poseidon (aquele filme catástrofe muitíssimo bem feito de 72, com a Shelley Winters e o Gene Hackman, e que ganhou um remake insignificante, pero divertido, em 2006), começa o show de clichês. Quando entra água na jogada, o troço afunda. E não emerge das profundezas até os últimos cinco minutos finais. Do desfecho eu gostei. Tem uma ironia política até surpreendente. Lembram em O Dia Depois de Amanhã, quando vários americanos tentam ultrapassar a fronteira do México, já que a América querida está coberta pela neve, e os portões são fechados? É algo nesse tom. Só que ainda prefiro mil vezes Dia, que é mais rápido e direto, mais eficiente, mais adulto e até mais ousado. 2012 não tem muito de marcante. Tipo assim: alguém sabe diferenciar Impacto Profundo de Volcano de O Inferno de Dante? Eu não, e tenho a ligeira sensação de que já vi os três. Algo me diz que o novo filme catástrofe vai entrar pra essa listinha do esquecimento. Podem anotar, em 2012 ninguém mais vai se lembrar do filme homônimo. Quando o fim chegar, então, xii, aí não restará na minha memória senil vestígio algum da relação pai-filhinhos mostrada insistentemente no longa. Ou, pelo menos, assim espero.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

DESENCANTO – Assim terminam os clássicos

David Lean é ligado constantemente a épicos monumentais, grandiosos. Não é pra menos, já que o diretor inglês criou coisas que fazem jus a esse título, como Lawrence da Arábia, Doutor Jivago e A Ponte do Rio Kwai. Por isso, quando pensamos em Lean, chega a ser quase impossível conecta-lo a um drama tão simples (relativamente falando, e em alguns aspectos, apenas) e íntimo como o maravilhoso Desencanto (Brief Encounter, no original, ou, traduzindo, "breve encontro"), de 1945, baseado numa peça de Noel Coward. Esse era o quarto filme do diretor, o que lhe deu maior visibilidade (e sua primeira indicação ao Oscar), feito durante a Segunda Guerra antes dos épicos que lhe deixaram famoso (com justiça). A história de Desencanto parece, inicialmente, bem comum: um homem e uma mulher, ambos casados, se conhecem casualmente numa estação de trem e, a partir daí, desenvolvem uma paixão proibida. É um romance belo e melancólico que fala não apenas do amor, mas também, e principalmente, do sentimento de culpa. Existe, no roteiro, uma sutil não-linearidade nos fatos. Não precisa ser muito esperto pra sacar que o final é, na realidade, o começo. Mas é preciso ter bastante atenção pra notar como, no início, por nós, o público, não conhecermos a história por trás daqueles rostos desconcertados, não existe tanta tensão como há no fim, onde nos é mostrado a mesma cena, sob outro ponto de vista. Mas nesse momento já estamos envolvidos, e quase podemos sentir toda a pressão que o casal está sofrendo. Pago pra ver alguém não chorar. Desencanto foi considerado há pouco tempo um dos melhores filmes britânicos da história, pau a pau com O Terceiro Homem. É pro cinema inglês o que Cidadão Kane é pro americano, só pra citar um exemplo. Billy Wilder, que não é bobo, amou tanto o filme que usou um de seus coadjuvantes (o amigo do protagonista, dono do apartamento) em uma de suas melhores comédias, Se Meu Apartamento Falasse, transpondo-o como protagonista. E depois ninguém é perfeito, né?

Pra começar, Desencanto jamais seria feito nos dias de hoje. Por uma porção de motivos. Primeiro que, pro público atual, muito mal acostumado com Hollywood, a trama do casal que se apaixona e não pode viver esse amor soa por demais ultrapassada, brega... Nos nossos tempos ou um filme é 100% infantilóide, ou ele parte pra baixaria sem motivo de ser. Quando temos o desejo sexual proibido transposto em olhares, em gestos, até em diálogos, bah, daí é velharia. A vantagem disso é que Desencanto nunca ganhará um remake, a não ser que seja feita uma revisão na trama. Sabem, com algum esforço dá pra transformar a história do drama em um filme de ação. É fácil. Junte-se ao amor proibido uma raça alienígena prestes a invadir a terra e voilá, fez-se os bons números na bilheteria. Óbvio que desse modo Desencanto perderia sua profundidade, mas quem liga pra isso? Queremos a casa branca aos ares, viva! A desvantagem de Desencanto ser o pesadelo dos adolescentes é que ele certamente está ganhando poeira na prateleira da locadora mais próxima. Suponhamos que o atendente da locadora seja um cinéfilo de bom gosto (eu sei, maior viagem. Se eu falo Hicthcock pro mocinho da locadora aqui perto de casa ele me diz “saúde!”) que indique o filme pra alma perdida que não sabe o que quer da vida. Quais são as opções? Opção A) o sujeito, muito esperto, confere a data de produção do filme no verso do DVD e o devolve a prateleira, fazendo o sinal da cruz; opção B) ele confia no atendente e leva Desencanto para casa, mas arranca-o do aparelho de DVD logo nos créditos, quando descobre que é em preto-e-branco; opção C (e a mais provável) a pessoa em busca de um filme que tenha sido feito, de preferência, depois dele ter nascido, joga Desencanto na cabeça do pobre atendente, que perde os sentidos, cai e bate a cabeça no balcão, falecendo em seguida. Ok, hoje estão no meu estado trágico, mas é que acabei de rever Desencanto, que é pura melancolia, pra escrever sobre ele. Dêem-me um desconto. Outro fator crucial que conta muitos pontos pra gente crer que Desencanto jamais seria feito nos dias atuais é seu ritmo todo peculiar, muito mais britânico do que americano. Hoje em dia as pessoas não têm tempo para pausas reflexivas ou construções psicológicas em longos closes nos rostos arrependidos dos personagens. Se eu obrigasse meus amiguinhos a verem o filme, por exemplo, eles certamente argumentariam que dava pra contar essa mesma história em no mínimo metade do tempo (isso porque ele já é curtinho, menos de uma hora e meia). Era só usar uma edição mais eficiente (lê-se picotada), cortar a maioria das cenas românticas, talvez acrescentar um letreiro preguiçoso ao final que explique o que a edição cortou, e, tcharan, teremos o mesmo filme, e ainda nos restará tempo de sobra pra, ahn... pra... jogar videogame? Ler um livro é que não é.

O que mais gosto em Desencanto é justamente a sua incrível sensibilidade ao contar, sem pressa, toda a construção do amor dos personagens. Não existe amor à primeira vista, vamos combinar. Não é apenas por um olhar que o casal acredita que aquela é sua alma gêmea. Na realidade, a cada novo encontro, às quintas-feiras, os pombinhos vividos pela Celia Johnson e pelo Trevor Howard estão mais apaixonados, mais envolvidos naquele amor. Existe uma construção, degrau por degrau, até chegarmos ao clímax da paixão, e também da culpa. Ta aí outro aspecto. Os dois são casados, e o adultério, na época, era visto como algo muito mais indigno do que hoje em dia. Principalmente pra mulher. Desencanto é muito sincero nesse aspecto, ao contar a trama pelo ponto de vista da personagem feminina. É ela quem nos narra a trama, em tom de desabafo, já que não pode contar a ninguém mais. Ela se encontra casualmente com uma dondoca conhecida sua, e pensa: ah, se eu gostasse o suficiente de você para lhe contar... O que ela mais quer, naquele momento, é desabafar. Como se assim sua culpa pudesse ser amenizada. No entanto, não conhecemos os pensamentos do homem. Também não vemos nenhum membro de sua família, nem o vemos quando ela não está presente, fora dos encontros. Com a personagem da Celia Johnson é diferente. Nós não apenas conhecemos seu marido e filhos, como também acompanhamos todo o seu sofrimento muito mais de perto do que o dele. Daí você me pergunta: sofrimento por que, culpa por que, auto-punição psicológica por que, ó, dúvidas? É verdade que não há o que hoje em dia seria considerado adultério: o sexo. Mas existe o desejo, e, menos do que isso: só o fato de ela se apaixonar por aquele homem, e vice versa, já é mais do que suficiente para suas mentes pesarem. Ainda mais naquela época, com a repressão mais forte do que nunca. E, veja só, chegamos em outro fator pra Desencanto ser um “cruz credo” a muitos, como a maioria dos clássicos: é tudo tão “inocente”. Eles dão alguns beijinhos e já acham que vão queimar no fogo do inferno? Ah, que gente careta! É que esse pessoal não leva em consideração a época, e muito menos que a paixão psicológica conta, por vezes, tanto quanto a carnal. O que me leva a outro filme, esse recente: Fim dos Tempos, do Shyamalan (que eu não achei a maior catástrofe de todos os tempos, como muita gente diz. Mas daí a eu dizer que gostei do filme são outros quinhentos...). Lembro que, desde o começo dele, a Zooey Deschanel se culpa por alguma coisa que não sabemos bem o que é, mas que, por alguns motivos, supomos que seja uma traição. Daí, lá pelas tantas, quando as plantinhas estão prestes a destruir a humanidade, ela confessa ao seu marido, o Mark Wahlberg (não é muito fácil identificá-lo no filme, já que tem uma atuação parecida com a das plantas. Ele é o menos verde), que, ahn, como posso dizer, humm, é muito embaraçoso, ela confessa que comeu uma sobremesa com um desconhecido. Ah, fala sério. E o pessoal reclama da inocência de um Desencanto?

Mas esse clássico não se resume apenas a uma trama de amor proibido ou de culpa. É também sobre o vazio existencial. As cenas em que a colega de viagem faladeira começa a narrar algumas trivialidades sem parar e a câmera foca sua boca se movimentando, enquanto o som vai diminuindo gradativamente, mostra bem isso. A protagonista se pergunta, em determinado momento, “por que temos que ser simpáticos a todo instante?”. Às vezes eu também me pergunto isso. Quem já esteve no meio de um silêncio embaraçoso e se viu na obrigação de fazer algum comentário inútil (“ihh, acho que vai chover”) pra quebrar o clima levante a mão. Um de cada vez. Fora o marido da protagonista, que está a todo momento concentrado em seus livrinhos de palavra-cruzada. Em uma cena a mulher meio que confessa o que andou fazendo, confessa seus encontros com o médico, mas o marido, sem tirar os olhos da revista, apenas faz que “sim, aham, claro”. Óbvio que ele não ouviu uma palavra. E é legal que, mesmo assim, ele não seja visto como o carrasco da história. Na verdade, apesar de parecer se interessar muito mais nas palavras-cruzadas do que na esposa, o marido da protagonista é carinhoso com sua família. Então porque ela se apaixona por outro homem, se seu marido a ama e não a maltrata? E nós escolhemos com quem, onde e quando vamos nos apaixonar, por acaso? No início ela nos conta que seu casamento era feliz, e parece não entender porque, nesse caso, se apaixonou por outro homem. Hoje em dia uma mulher que trai por ter um marido bêbado, vagabundo e que a trata mal, essa pode até ser perdoada. Mas trair tendo um homem carinhoso em casa (mesmo que não o ame), isso é coisa de vadia mesmo. (aviso: trocadilho infame na próxima frase) É, a cada vez mais me convenço de que Desencanto dificilmente encantará a nova geração. Nas mãos de gente errada, filmes como esse podem facilmente virar motivo de piada. E assim terminam os clássicos (?).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

RESULTADO DA ENQUETE: QUAL O MELHOR FILME DO ALMODÓVAR?

Almodóvar e Antonia San Juan nas filmagens de Todo Sobre Mi Madre (1999)

Me digam uma coisa: esses produtores querem nos matar ou o quê? Porque se é isso o que eles querem, por que não nos dão logo um tiro? Pra que essa tortura? Abraços Partidos, programado para estrear no Brasil no dia 20 desse mês, foi adiado em duas semanas, assim, de última hora, e agora nós só poderemos conferir o novo longa do Pedro Almodóvar no dia 4 de dezembro. E o que eles acham que eu faço até lá? Porque roer minhas unhas eu já roí, já revi a maioria dos longas passados do maior autor de nosso tempo também. Até já acabei meu estoque de chocolate. Mas vamos ao resultado da enquete, que mobilizou 75 pessoas a votar. Fico feliz que vocês amem Almodóvar tanto quanto eu (mas eu ainda amo mais, viu viu?). E em último lugar, surpreendente pra mim, com 1 votinho apenas, ficou Ata-me!. Não que eu seja o maior fã do filme, porque não sou. Mas ele não é cheio de admiradores por aí? Já ouvi uma porção de gente que o considera o melhor do Almodóvar até hoje. Não acho que o argumento seja lá muito bom, mas ele ta cheio de pequenos toques almodovarianos que o fazem valer. E eu gosto bastante do final. Se bem que, da primeira metade da década de 90 (até 97), eu prefiro De Salto Alto (e A Flor do Meu Segredo também é agradável, Kika um pouco menos). Já viram esse? Não dá pra compará-lo com o que Almodóvar viria a fazer posteriormente, mas aqui a gente já pode ver viárias de suas características mais recentes, como apostar no melodrama (se bem que De Salto Alto ainda é meio kitsch). Confiram que vale a pena. Até a pior coisa que Almodóvar já produziu vale a pena, juro. Não deu pra incluir todos os seus longas na enquete, até porque, pouca gente viu os primeiros e menos famosos filmes. Mas, em homenagem a esses aqui excluídos, ilustro o post com seus cartazes. E não deixem de vê-los.

Em penúltimo lugar, com 3 votos (ou 4%), vem Matador. Ah, esse eu não gosto. Ok, o filme tem lá seus momentos, mas, ainda assim, é o Almodóvar que menos me agrada, acho. Se é pra escolher um dos filmes de começo de carreira (sem contar Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, que esse é coringa), da década de 80, prefira A Lei do Desejo ou Maus Hábitos (ainda não tive a oportunidade de conferir seus dois primeiros filmes: Pepi, Luci, Bom e Labirinto de Paixões, mas vi outro dos primórdios, Que Fiz Eu Para Merecer Isso?, e gostei). Empatado com Matador ficou Carne Trêmula. Isso pra mim é inaceitável. Gente, como assim? Vocês não gostam ou não viram? Ou esse absurdo aconteceu porque a concorrência é forte? Bom, o caso é que Carne Trêmula é a primeira obra-prima da melhor (e mais madura) fase do Almodóvar. Depois de Carne, em 97, ele iria fazer mais quatro filmes de babar (será Abraços Partidos a sexta maravilha consecutiva? Teremos que esperar – ó céus – pra ver). Esse é o tipo de filme que ainda faz o cinema atual sair bem na foto.

Daí, com 9 votos, ou 12%, chegamos a Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, essa delícia de comédia. É importante na carreira de Almodóvar não apenas por ter-lhe dado sua primeira indicação ao Oscar (por filme estrangeiro), mas também por ter aberto espaço no cenário internacional pro seu cinema. Se não bastasse ser um filme incrivelmente divertido e engraçado, ainda teríamos que nos curvar diante dele por ter aberto as portas pro nosso ídolo. Mas Almodóvar daria um jeito de alcançar o cinema internacional com ou sem Mulheres à Beira. Felizmente foi com.

Então chegamos a Tudo Sobre Minha Mãe, esse sim, definiu Almodóvar mundialmente de vez. E é a síntese de seu cinema. Quem o vê e não absolutamente se apaixona, pode desistir de tentar conferir qualquer outro. “Tudo” é um dos mais sensíveis e originais filmes dessa década (que podemos chamar de quase perdida, para o cinema, talvez?), a mais admirável e sincera homenagens às mães (e às mulheres, no geral) que o cinema já viu. E quantos filmes conseguem ter tantas cenas antológicas? Hitchcock já havia nos provado que um filme deve ter pelo menos uma cena marcante. Em Tudo Sobre Minha Mãe é uma sequência memorável atrás da outra. A gente ri, chora, aplaude, rebobina (não uso essa faz tempo) e assiste de novo. Soberbo, lindo, lindo. Por isso que eu fiquei apavorado no começo quando vi todos os trabalhos mais recentes do Almodóvar deslanchando na frente, e “Tudo” com apenas uns 3 votinhos. Somente agora, no finalzinho da enquete, que ele conseguiu arrecadar 12 votos, ou 16%. Ufa!

Má Educação conseguiu 14 votos (18%), ficando com a terceira posição. Já falei (quase) tudo o que queria sobre essa obra-prima espetacular aqui. Em segundo lugar, com 16 votos, ou 21%, está Volver, outro que amo. Por curiosidade, Almodóvar montou o roteiro desse filme com várias ideias que já havia tido no passado (e Volver fala bastante sobre isso, sobre o passado). Ele juntou um roteiro que tinha começado a desenvolver (intitulado Tacones Lejanos, mas que não tem nenhuma ligação com o filme de mesmo nome que ele fez em 91), cuja trama falava sobre fantasmas que não eram fantasmas, com a história central do livro que a Marisa Paredes escreve em outro filme seu, A Flor do meu Segredo. Se vocês virem esse longa de 95, prestem atenção que poderão encontrar Volver “dentro dele”. Só Almodóvar...

O primeiro lugar, com louvor, foi para Fale com Ela, que recebeu 17 votos, um a mais que o segundo lugar. Aliás, três ou quatro filmes ficaram, na enquete inteira, ali ó, pau a pau. Um ficava em primeiro, depois descia pro segundo, subia de novo. Disputa acirradíssima, e eu entendo. É sacanagem minha ter que pedir pra vocês escolherem entre tantas maravilhas, uma diferente da outra. No meu caso, depois de muito sofrimento, acabei conseguindo entrar aqui em outros dois computadores, e três longas ganharam meu votinho: Má Educação, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela. Óbvio que minha consciência só estaria plenamente satisfeita se eu votasse em no mínimo mais dois: Carne Trêmula e Volver. Essas são suas cinco obras mais magníficas, e todas elas podem ser encontradas em DVD no Brasil, assim como alguns dos mais antigos também. Procurem, vejam, revejam, porque Almodóvar é único. Chega logo, 4 de dezembro!

domingo, 15 de novembro de 2009

(500) DIAS COM ELA – Explosão de fofura

O amor é azul como os olhos da Zooey. E lindo como um musical. Mais ou menos.


Fui ver a nova comédia romântica que vem recebendo inúmeros elogios tanto da crítica especializada quanto do público. Particularmente, adoro quando um filme consegue agradar os dois meios. Significa que ele tem todas as maiores características que levam o grande público a deslocar-se de suas casas (entretenimento, principalmente), que são justamente as mesmas características que moviam as pessoas nos primórdios do cinema (quando uma porção de gente não admitia que este fosse considerado arte), mas que também é sinônimo de filme inteligente. Não que eu ache que só porque os críticos elogiam determinado filme ele é inteligente e ponto, e quando o grande público comparece em peso significa que ele não presta. Pelo contrário, eu poderia citar um monte de exemplos de grandes filmes massacrados pela crítica e que foram bem de bilheteria. Mas o caso é que é bem raro, atualmente, a gente usar as palavras “originalidade” e “comédia romântica” na mesma frase. É um gênero que o público comparece sempre, que segue dando dinheiro. Mas que, vamos combinar, precisa de uma reforma urgentemente. (500) Dias Com Ela não é exatamente um grande exemplo de originalidade, e nem a pau que vai fazer uma revolução no gênero. Mas nós, acostumados que estamos com a mesmice, achamos em qualquer coisa levemente diferente um frescor no ar.

Ok, meu último comentário foi injusto. A comédia não é “qualquer coisa levemente diferente”. Ela é uma delícia. Acho legal que a visão do filme do amor seja um bocado trágica, quase pessimista. Não tem nada de muito meloso no amor de (500), nada tipo “ele é lindo e dura para sempre e além”, tipo nos filmes do Robin Williams (se eu citar o nome desse ator em vão mais uma vez, to ligado que vou apanhar). Só que, mesmo tendo esse olhar peculiar, poucas vezes visto num filme do gênero, ele super consegue cativar. (500) é bem o tipo de filme que a gente ouve um monte de “ooohhh, que lindo” durante a sessão. Só que não é nada piegas, nada de beijos ao pôr-do-sol. É, na realidade, um romance sincero, simpático e que ganha nossa confiança por seus toquezinhos cool. Agora, se me permitem contar um fato marcante que aconteceu durante a sessão em que eu estava, houve uma briga feia entre um grupinho de amigas que estava conversando e uma senhora que foi bem mal educada com elas. Sério, foi uma berrando com a outra por uns três minutos, uma baixaria. Detesto que conversem no cinema, mas, poxa, povo estressado... No fim precisou do guardinha do cinema para conter os dois lados. Eu quase perguntei quantos anos elas tinham, três?, mas me segurei. Volvendo: na história de (500), um jovem arquiteto que trabalha escrevendo frases de cartões (aquelas tipo “Vim aqui pra te dizer... – abre-se o cartão – ...que te amo muito!”, sabem quais?) se apaixona perdidamente pela nova assistente de seu chefe. Ele, crente no amor dos contos-de-fada, olha praquela mulher e vê nela a pessoa com quem quer passar o resto de seus dias. Já ela, que não acredita em amor eterno, e que detesta rótulos do tipo “namorados”, deseja apenas uma diversão passageira. Não vê nada de sério no relacionamento que acaba de começar, e desde o início deixa isso claro pra ele. Ok, a história é original em alguns aspectos. Eu gostei do roteiro, que é bem simples, mas não creio que ele seja assim um poço de novidades. É legal a ideia de “ele se apaixona, ela não”, mas o filme não consegue fugir de todos os clichês, sinto ter que lhes dizer. Mas é tão cativante que a gente nem liga. A começar pelo casal de protagonistas. A Zooey Deschanel é linda, bem apaixonante (o Renato apelidou o filme de “500 dias babando pela Zooey”). Já tinha reparado nela em Sim, Senhor!. Era ela aquela que roubava todas as cenas do Jim Carrey, lembram? E a atriz já tem a fama de ser fofa, por seu jeitinho e tal, mas aqui a sua personagem meio que bate de frente com essa característica. Ela não acredita no amor, nos relacionamentos, não quer nada sério com seu “namorado”, se preocupa mais com sua vida profissional do que com a amorosa (que ela afirma não ter, deu a livre). Só que a Zooey, ohhh, ela mantém seu jeitinho de ser. Não conseguimos libertar sua persona da personagem, e, acreditam, isso faz bem ao filme. Fica diferente porque, apesar de algumas ações dela serem meio irritantes, esta, ainda assim, não perde a nossa confiança. E o protagonista, o Joseph Gordon-Levitt, ta muito bem, cheio de carisma. De novo, seu personagem é irritante em vários momentos, mas seguimos gostando dele. Os dois são meio anti-heróis, sabem? E tem gente falando que esse é o casal sensação do momento. Eles já viraram queridinhos pela – vamos encher a boca para o clichê – química que têm juntos. Os dois estão longe de serem um casal perfeito, e ta aí a graça. Adoro a cena em que eles literalmente brincam de casinha numa loja de móveis. Eu fazia mais ou menos isso com meus amiguinhos. A gente ficava tirando fotos naqueles sofás enormes, na frente daquelas televisões de plasma... até o segurança nos expulsar. Sendo que nós não fazíamos nada de mais (é proibido fotografar ou é proibido ser feliz?). Mas, em todo caso... Também adorei a cena em que a Zooey ensina o Joseph a se soltar mais, e o manda gritar “pênis” no meio da rua. Ele diz que, “ok, agora chega”. Segue-se um silêncio até que a Zooey, no meio de gargalhadas, grita: “Pêêêniiss”. Uma musiquinha começa a tocar (a trilha sonora é ótima!), a câmera mostra um plano aberto do parque, e o cinema inteiro: “oohhhhh, que meigo”. Eu sei, você já viu isso antes, mas a vantagem é que aqui não há o perigo real de alguém vomitar por excesso de melação. É fofo, meigo, cativante, todas aquelas palavras usadas pelas garotas (os seus acompanhantes do sexo oposto se recusam a proferi-las) ao saírem de uma sessão de alguma comédia romântica. Mas aqui tudo é mais sincero.

Agora, vamos combinar, ta mais do que claro que a maior fonte de inspiração do roteirista e do diretor é Annie Hall (aqui chamado bizonhamente de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – não tinha um troço mais comprido?), do Woody Allen. Ambos os filmes tem um casal meio fora do padrão, uma visão deturpada do amor e um monte de toques diferenciados. Lembram quando, em Annie Hall, o Woody esperava numa fila de cinema junto à Diane Keaton, e estava incomodado com um cara atrás dele que não parava de falar? O Woody vira e começa a discutir com o sujeito, alegando que ele não entende nada de Marshall McLuhan, um escritor. Depois de muita discussão, o Woody chama em cena o próprio McLuham, que concorda com ele, dizendo que aquele senhor está mudando tudo o que ele escreveu. Woody olha pra câmera e diz: “se a vida fosse tão simples...”. Aqui em (500) não há nada tão ousado (pouca gente tem a coragem de ultrapassar a barreira do cinema como o Woody), mas, ainda assim, há suas gracinhas inventivas. Por exemplo, adoro quando, em dado momento, a tela se divide em dois, apresentando os fatos como realmente aconteceram e, no outro lado, como o protagonista gostaria que acontecessem. Tem também aquelas idas e vindas no tempo. É tudo muito bem feito, e são nesses pontos que o filme ganha seu público. É mais ou menos como usar os mesmos ingredientes pra fazer uma outra receita. Há também referências a A Primeira Noite de um Homem e ao seu final sutilmente melancólico (e sem muitas esperanças no amor eterno) que eu tanto gosto. Inclusive, os personagens vão ao cinema conferir o filme do Mike Nichols. Já vi um monte de gente reclamando que, bah, só porque o filme usa elementos cool e referências à cultura pop americana não significa que ele seja bom. A mesma coisa aconteceu em Juno, lembram? Ok, Juno exagera em querer ser descolado, na minha opinião (principalmente na primeira metade), mas em (500) a coisa flui tão natural... Não sei qual o problema de um filme querer falar a língua de seu público. Posso estar sendo preconceituoso, mas acho que esse tipo de comentário é muito mais recorrente em pessoas mais velhas e altamente conservadoras, aquelas que têm como frase de cabeceira “no meu tempo...”. Não vejo problema em um filme usar a linguagem clássica do cinema, assim como não vejo problema em usar uma linguagem mais moderna. Contanto que seja honesto...

Eu sei que (500) conta com uma história bem íntima e tal (que parece ter sido inspirada na vida do roteirista, como nos deixa parecer uma frase antes dos créditos iniciais), mas não gosto quando uma narração em off diz que, no mundo, existem dois tipos de pessoa: mulheres e homens. Ahn, a gente sobreviveria sem esse tipo de generalização. Mas o filme me ganhou de vez quando ele incluiu um número musical do estilo que eu mais gosto, o pesadelo dos chatos, aquele em que o personagem canta e dança do nada. Aqui ele não canta, mas dança, e é acompanhado por todas as pessoas que passam na rua. Tipo o que a Amy Adams faz em Encantada, mas em proporções menores. É uma alusão ao estado de espírito do personagem, que está tão apaixonado que vê a vida como num musical. Foi durante essa sequência contagiante (a última vez que fiquei com vontade de sair dançando no meio do cinema foi em Quem Quer Ser um Milionário? – tenho problemas com música indiana, são contagiantes demais) que eu decidi que (500) se trata sim de um feel good movie. Pouca gente deu esse posto a ele, e eu juro que não entendo o motivo. Talvez pela sua visão tragi-cômica do amor, por não ser alegre em todos os momentos... Mas um feel good movie não precisa necessariamente ser totalmente feliz. Quem lembra de Pequena Miss Sunshine? Aquilo era um feel good movie sem discussão, mas tinha seus momentos tristes. A semelhança entre os dois se restringe ao fato de que ambos têm uma dancinha legal (só que a de Little Miss Sunshine é bem mais marcante) e nos deixam mais leves livres e soltos (de novo, com vantagem pro filme de 2006 que eu não me canso de rever). No final, quando estávamos saindo da sessão, eu juro que vi todo mundo mais sorridente. Vi também aquelas mulheres que estavam brigando no começo de mãos dadas, saltitando alegremente, mas tenho quase certeza de que essa última parte foi fruto de minha imaginação fértil. Só que uma coisa é certa: eu saí do cinema cercado por uma nuvem radioativa de fofura (não o salgadinho). E gostei disso.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MICHAEL JACKSON’S THIS IS IT – Pra fãs de carteirinha

Quando disse pra um amigo que ia assistir This Is It, o filme que mostra os bastidores dos ensaios do big show que o Michael Jackson estava preparando para apresentar mundo a for, ele me perguntou: “Você assistiria se ele ainda estivesse vivo?”, e eu fui bem sincero, disse que não. Na realidade, eu não assistiria nem agora que o Michael morreu, porque nunca fui seu fã. Falando só como artista (sem contar a vida pessoal), eu gostava bastante das poucas músicas que conhecia dele, mas nunca fui conhecedor dessa área, e, logo, nunca fui um dos adoradores do astro do pop. Não dá pra negar que ele foi um senhor artista, muitíssimo completo. Só que, ahn, um documentário que mostra tudo o que rolou nos ensaios do show, jura? Isso não é pra mim. Mas fui ver com uma amiga, essa sim, fãzona do MJ, e, sabem, eu gostei. É claro que nem que eu fosse o último ser pensante do mundo seria escolhido como mais cotado para falar de um filme como esse, então, não esperem uma enxurrada de informações legais nessa crônica. Se bem que eu sou a prova viva de que não é tão necessário assim morrer de amores pelo Michael pra gostar do filme, mas desde os créditos iniciais uma mensagem já nos avisa que aquilo ali é feito pensando unicamente nos fãs de carteirinha. Não exatamente com essas palavras.

O pessoal que se sentou na fileira atrás da nossa provavelmente perdeu essa mensagem, e ficou conversando (em voz alta, que fique claro), durante toda a sessão. Quando eles fizeram algum comentário idiota (provavelmente homofóbico) que minha mente fez o favor de apagar, minha amiga, super envolvida no filme, não se aguentou, e pediu, assim, gentilmente (mas num tom de voz também elevado), pra eles pararem. Por favor. Bom, depois disso o grupinho bateu palmas após umas duas músicas, e eu, no auge de minha inocência, pensei que, ohhh, que bacana, eles se renderam ao astro do pop. Mas fontes me informaram que aquilo tinha cunho irônico, então... (e esse foi o segundo ato de falta de respeito que vimos no cinema no mesmo dia. O outro aconteceu quando estávamos conferindo 500 Dias Com Ela – escrevo sobre ele já já). Já vou avisando que o documentário não fala nem por um segundo da vida pessoal do Michael. Na verdade, em nenhum minuto ele (o filme) sai dos palcos dos ensaios. É quase como um making off que viria nos extras de um DVD (só que mais bem bolado e tal). Portanto, pense duas vezes antes de ir ao cinema. Se resolverem arriscar e forem conferir, cuidado com os comentários desrespeitosos, porque certamente a sessão estará lotada de fãs enfurecidos com os intrusos linguarudos (e com razão). Se bem que minha amiga estava tão envolvida no cinema que ela nem notou quando eu tentei acompanhar a letra de Thriller baixinho (e olha que quando eu decido cantar eu chamo a atenção – no mal sentido, claro). Eu olhava pros olhinhos dela, brilhando, e pensava: é assim que eu fico quando to vendo um musical ou, sei lá, algum outro filme emocionante, algum do Almodóvar? Provavelmente. E ver esses fãs emocionados com o filme não pelo MJ ter morrido, mas por ele ser um cara que gostava do que fazia e que fazia com carinho (é o que This Is It passa), isso emociona.

O que mais gostei é que o documentário não coloca o Michael num altar de ouro. É claro que ele é o centro das atenções (e tem como não ser?), mas não me pareceu pretensioso hora nenhuma, e, apesar de haver exaltações ao astro, não é nada que não seja natural. Tem também um espaço pra mostrar toda a equipe do show, porque, é claro, existe um processo de criação por trás do espetáculo. E adorei ver todos aqueles artistas (cantores, dançarinos, etc) se dedicando tanto com a maior boa vontade. Ta todo mundo com um sorriso no rosto, mas, juro, não parece ser só porque eles estão aparecendo na frente das câmeras. Não. Parece sincero, e o é. O sonho de todos eles está se realizando, e o documentário não tenta esconder isso. E eu, que nem conhecia as músicas direito, estava bem curioso em relação ao comportamento do MJ nos bastidores. Do pouco que se vê, ele se mostra bastante perfeccionista, mas não arrogante. Ok, estou certo de que, se existisse alguma imagem do Michael tratando qualquer uma daquelas pessoas de forma indigna, elas não entrariam no documentário. Mas This Is It me passou a imagem de ser tão sincero, que eu nem pensei nisso na hora. Se vocês querem uma opinião mais respeitável, minha amiga amou, assim como a maioria dos fãs andam babando pelo filme. O pessoal só não ta agradando muito da reconstrução do clipe de Thriller, e eu entendo. Ah, como assim, modernizar (o que é aquela aranha gigante?) um troço que já é um dos maiores ícones dos anos 80? Mas, pra mim, a parte menos inspirada é aquela que acompanha a música Earth Song. A gente vê um curta de uma menina que deita debaixo de uma árvore numa floresta verde e linda, e acorda num matagal devastado e queimado. A ideia é nobre, a realização não. Ficou piegas que dói. Claro que, se eu estivesse no meio do show e visse esse vídeo no telão, iria me emocionar demais, porque, querendo ou não, é diferente. No cinema não rolou. E, outro aviso: o Michael não solta o gogó com vontade e com todas as suas forças em nenhum momento dos ensaios. Ele estava deixando o melhor pro show, que, como disse um dos técnicos, deixaria o pessoal de boca aberta de tão inovador. É triste quando a gente lembra que o máximo que os fãs vão ver são esses ensaios. Acho que a gente pode usar aquela expressão “é melhor do que nada”. Depende. Se você for fãzão, provavelmente vai preferir “é muito melhor do que nada”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MÁ EDUCAÇÃO – Almodóvar mal educado, graças a deus

Hoje vou falar sobre Má Educação, que, sem brincadeira, é um dos melhores produtos cinematográficos dos últimos anos. Quiçá da década. Não ouso comparar nenhum dos filmes do Almodóvar, principalmente seus últimos trabalhos, com qualquer coisa feita em Hollywood, porque é covardia demais. Tipo assim, me peçam pra escolher entre uma barra grande do melhor chocolate ao leite ou um daqueles bom-bonzinhos baratos. Pois é. Só não digo que Almodóvar é o caviar do cinema, porque, ugh, ovas de peixe? Fiquem com a analogia do chocolate, que é melhor. Aliás, comparar a importância do chocolate na minha vida com a do cinema de Almodóvar pode até soar forçado, mas, gente, faz total sentido. Eu não consigo viver sem nenhuma das duas coisas. Minha existência de cinéfilo pode ser facilmente divida entre antes de conhecer Almodóvar, quando eu ainda tinha pouca noção do que era realmente se emocionar vendo um filme, sem ser necessariamente um melodrama, e depois de ver meu primeiro filme do cineasta espanhol, quando minha visão sobre o cinema avançou anos luz. O que me faz lembrar de uma vez em que estava conferindo Volver, e minha avó, claramente assustada, me perguntou: “É um filme? Por que eles estão falando em espanhol?”. Quem sou eu para culpá-la, com todas as salas de cinema sendo ocupadas pelo lixão americano? A gente tem que se curvar diante de Almodóvar não apenas por ele fazer cinema em outra língua que não o inglês, e não apenas pelo seu inegável talento, mas também por abrir a cabeça das pessoas a outras culturas, a outro tipo de cinema, bem menos empacotado. Bem mais emocionante e apaixonado. Quando fui comprar os ingressos do novo do Almodóvar em sua última exibição na Mostra de São Paulo, chegando três horas antes para garantir minha entrada, e mesmo assim encontrando tudo esgotado, eu fiquei triste, lógico. Poxa, eu estava animado pra conferir Abraços Partidos. Mas, depois, pensei a respeito e, sabem, fiquei feliz. As pessoas estão comparecendo em peso, e isso significa que, aleluia, muita gente ama Almodóvar tanto quanto yo. A gente bem que podia fazer uma campanha, né? Deixe de ir conferir a última comédia romântica no cinema e fique em casa (re) vendo qualquer grande Almodóvar (ou algum filme brasileiro, francês, austríaco, mexicano, alemão, japonês...). Ok, da última vez que propus uma campanha (“Sorria para um desconhecido na rua”), as consequências foram catastróficas (hoje a corrente segue com apenas dois membros: eu e meu cachorro), mas não custa tentar... Olha, se fosse algum sacrifício que eu estivesse pedindo, vá lá, mas conferir filmes tão excepcionais como Má Educação, querem prazer maior? Fiquei perturbado quando soube, pelos comentários, que muitos de vocês nunca viram nenhum Almodóvar. Dêem seus testemunhos: como é viver assim? Opa, mas a magia do DVD existe pra que, afinal? A partir de hoje vou andar na rua com um broxe na minha camiseta dizendo: “Não conhece Almodóvar? Quer conhecer? Garantia de vida mais feliz: fale comigo, converta-se, aleluia!”. É ou não é uma campanha nobre?

Mas vamos a Má Educação. Acima de todos os filmes do Almodóvar, esse é o mais difícil de se resumir em uma sinopse. Recomendo que vocês confiram o filme sabendo o mínimo possível da trama. Mas aqui vocês não precisam temer, porque minha boca é um túmulo lacrado. Só vou contar o básico do básico. Vamos lá, na ponta dos pés: o filme começa com Ignácio (que adotou o nome artístico Angel), um ator, indo de reencontro com um velho amigo da escola, o agora cineasta Enrique. Ele vem trazer um roteiro para um filme que é baseado na infância dos dois. Daí, Enrique começa a lê-lo, e adentramos, pelo relato escrito, no passado dos personagens. Descobrimos que, quando criança, ambos estudavam em um colégio católico, onde se apaixonaram. O padre com posto mais alto do colégio constantemente abusava sexualmente de Ignácio. Quando Enrique é expulso do colégio, os dois se separam, e só voltam a se ver agora, para rodarem um filme juntos. Isso, minha gente, é só a base. A trama está tão cheia de camadas, de idas e vindas, que Almodóvar chegou a confessar que esse é o seu filme que fica melhor quando visto pela segunda vez. E é mesmo. Lembram de quando O Sexto Sentido estreou, e todo mundo foi conferir uma segunda vez, para pegar as pistas soltas durante o filme sobre o Bruce Willis ser o fantasma? Aqui é parecido, mas, claro, muitíssimo mais complexo e interessante. Prestem atenção em cada detalhe, porque nada está ali por acaso. Até algumas cenas que pra alguns podem soar gratuitas, como a da piscina, se encaixam perfeitamente. Sabem aqueles closes que o Almodóvar insiste em fazer na cueca molhada do Gael García Bernal, nessa sequência? Então, a chave do filme está nesses closes. Pensem nisso... Só que eu não digo que este é o melhor do Almodóvar, mas nem sob tortura. É que são tantos filmes maravilhosos que citar um como o melhor é sinônimo de ficar com dor na consciência (já deu pra notar que votar na nossa enquete ta sendo duro, né?). Mas uma coisa eu posso dizer: pra mim esse é o melhor roteiro que ele já escreveu, o mais bem bolado. É tão genial que chega a me emocionar. Aqui está acontecendo um filme dentro de um filme. Uma mesma situação é contada de três pontos de vista diferentes: o de Ignácio, que escreveu o roteiro, o de Enrique, que o filma, e, mais tarde, a do padre, o real. Há também alguns personagens que são representados por mais de um ator, dentro e fora da ficção. Outros mudam de faceta (e de nome) durante seu percurso. Ah, só Almodóvar pra transformar o protagonista, a figura carismática que é o centro do filme, no vilão, assim, de uma hora pra outra, sem parecer forçado. Pelo contrário, fazendo completo sentido, soando da forma mais natural. E sem prejudicar o ritmo, que é invejável. Entre a infância dos personagens, o presente, a ficção, a não-ficção, o filme que está sendo rodado, o roteiro que está sendo lido e a verdade por trás de tudo isso, Almodóvar nos fascina com seu talento para fazer uma história tão difícil fluir belamente. Às vezes me pego pensando: será que eu não superestimo esse filme? Não sei se é por viver numa época em que tudo é refilmado, copiado e reciclado, mas... Não, não é por isso não! Má Educação é genial e ponto. Seja hoje, ontem ou amanhã. Não importa a época ou o contexto, só Almodóvar pra criar um filme como esse. Ah, gente, fala sério, até os créditos iniciais dos filmes do cara são mais prazerosos de se ver do que os do cinemão. Até os cartazes de seus filmes são mais bonitos...

Eu não ia falar sobre isso, mas como sei que muita gente vai comentar a respeito, já deixo aqui meu parecer sobre a questão da homossexualidade. Bom, como disse, é sacanagem comparar Almodóvar com Hollywood. Não tem comparação. Enquanto Filadélfia, de 93, deixava de incluir um beijo gay com medo de chocar o público, Almodóvar, em 87, com A Lei do Desejo, já apresentava uma história onde a sexualidade dos personagens (existe um transexual e um casal gay com uma relação conturbada que protagoniza cenas de sexo) pouco importava. Era algo natural, sabem? Gosto de Brokeback Mountain, e admiro que o Ang Lee tenha se esforçado para criar uma história de amor comum, sem ser diferente só por ser gay, mas, infelizmente, não existe completa naturalidade. Um montão de gente se refere a Brokeback como “romance gay”. Já Almodóvar, ele cria filmes onde a sexualidade dos personagens é apenas um item, como Má Educação. Quer dizer, o filme não fala exatamente sobre preconceitos contra gays, nem muito sobre homofobia. O centro do filme não é o relacionamento homossexual. Os personagens de Má Educação podiam muito bem ser casais heteros. Daí você me pergunta: e porque eles são gays, então? E eu ataco: por que não? Os personagens de Má Educação são gays porque são, mas, dane-se. Você me diz: mas se a sexualidade não é o tema central, porque aquelas cenas de sexo? Porque elas são importantes pra trama. Assim como uma porção de filmes têm cenas de sexo hetero (e nem por isso são chamados de “filmes heteros”), apesar do que, novamente, não dá pra comparar a importância que esse tipo de sequência tem num filme do Almodóvar com a (des) importância em um monte de outros.

Pra exemplificar melhor o que tenho pra dizer, vamos a outro ponto: Má Educação é, entre outras coisas, um filme noir. Não gosto muito quando, o diminuindo, dizem que ele é uma homenagem aos filmes noir. É uma homenagem sim, não só aos filmes negros, como são chamados, mas a todo o cinema, do jeito que Almodóvar sempre faz. Mas, mais do que uma homenagem, Almodóvar cria realmente uma originalíssima trama de filme noir. Ele transpõe todos os personagens comuns a esse tipo de filme para o universo almodovariano. Por exemplo, nos filmes noir sempre existe um detetive, geralmente investigando um assassinato. Bom, o assassinato está presente, então, já se foi um item. Já o detetive, este pode muito bem ser o cineasta. Ele vai investigar o passado de Ignácio/Angel/Juan, mas não porque é contratado para isso. E sim por ser um artista. Os artistas são curiosos e adoram conhecer os limites e os labirintos da mente humana. Por ser diretor, e por criar personagens humanos, ele se interessa em investigar aquela mente muito da interessante, ele quer saber até onde Juan vai chegar. Em dado momento, ao sair de uma sessão de filmes noir, um personagem exclama: “é como se todos esses filmes falassem de nós”. O clima de Má Educação lembra muito o do cinema noir, mas com um toque a mais. Esse tipo de filme também apresenta, obrigatoriamente, uma femme fatale. Uma mulher sedutora que usa o sexo não exatamente para conseguir prazer, mas muito mais para conseguir dinheiro, sucesso e poder. Para conseguir o que ela quiser, resumindo. Lembram da Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue, do Billy Wilder, um dos melhores exemplos de filme noir? Mas aqui, por ser Almodóvar, por não ter medo de reinventar, ele faz o “femme fatale” ser o personagem do Gael García Bernal. Todas as características estão lá: ser sedutor, fatal, sem receio de passar por cima do outro, usando o sexo como pretexto para manipular alguém, etc. O que o diferencia das femme fatale da década de 40 é que ele é um homem. E um leitor ainda encucado me pergunta: por quê? Porque sim, ué. Do mesmo jeito que uma mulher pode ter essas características, um homem também pode. Almodóvar simplesmente escolheu que as relações presentes em seu filme seriam homossexuais, mas isso não diferencia o filme se fossem heterossexuais. Só que, claro, nem todos conseguem tratar isso com naturalidade. Sem querer bater na mesma tecla, mas a maioria dos diretores americanos fariam da homossexualidade do filme maior do que tudo. Maior do que a trama, maior do que qualquer outra característica do psicológico dos personagens. Mas Almodóvar sabe tratar disso com naturalidade. Não gosto de pensar que ele é a frente de seu tempo, porque, poxa, século XXI, né? Não é Almodóvar que está à frente, é a grande maioria das pessoas que está atrás. Mas filmes como esse fazem sim uma mudança na mentalidade de muitos. Ou se não, vejamos: Almodóvar é assumidamente gay, mas alguém se importa? A imprensa não se refere a ele como “Pedro Almodóvar, cultuado cineasta espanhol gay...”. Não. Porque ser gay ou hetero é o de menos. O que importa é que ele faz cinema de qualidade. E que qualidade...

Mas não vou gastar muito tempo nesse ponto, se nem o próprio Almodóvar se gasta com essa questão. A trama está cheia de toques interessantes, e um deles é a própria crítica à igreja. Tudo bem, hoje em dia não é novidade pra ninguém que existem padres pedófilos, que a igreja é uma instituição cheia de corrupção e tal. Mas enquanto filmes como O Crime do Padre Amaro se focam apenas nos podres da igreja, e acham que estão sendo revolucionários, em Má Educação isso é apenas um dos temas. O mais presente deles é a questão do noir, do mistério por trás dos personagens e de uma certa história de assassinato, mas a exposição da igreja se encaixa muito bem a tudo isso. E Almodóvar sabe quando ele tem que ser sutil. Por exemplo, a primeira vez que o garoto Ignácio é violado pelo padre, com a tela dividindo seu rosto em dois, assim como sua vida passou a ser, dividida, é de uma sutileza genial. Almodóvar é mestre em falar de temas pesados com a sua naturalidade costumeira. Não que ele ache que o abuso sofrido pelo garoto seja natural, banal. Não, longe disso. Mas essa trama não é tratada como um dramalhão chocante, como seria óbvio. E toda essa parte foi baseada na infância do próprio Almodóvar, que não só estudou numa escola católica, como também cantava no coral e era escolhido pelos padres para lhes ajudar nas missas. Mais tarde o cineasta veio a afirmar que recusou a (má) educação religiosa: “notei que pertenço ao pecado”, ele disse. E demos graças a isso.

Uma curiosidade: vocês sabiam que a ideia original do roteiro era que o personagem do Gael fosse mais parecido com o do Antonio Banderas em A Lei do Desejo, com alguns toques de humor? Mas Almodóvar diz que um personagem deve se adaptar a quem vai interpretá-lo, e, segundo ele, o Gael se encaixou muito mais com um Juan cruel e sem escrúpulos do que com um mais carismático. De qualquer forma, ele gostou do resultado final, e quem somos nós pra discordar? O Gael ta realmente muito bem na performance mais difícil de sua carreira. Sério, quantas vezes o roteiro do Almodóvar obriga o ator a mudar o tom de sua atuação? E quantos atores aceitariam um papel desses? Outro ponto interessante é que esse, ao contrário de grande parte dos filmes do Almodóvar, não apresenta nenhuma personagem feminina. Quer dizer, existem umas duas mulheres, mas nenhuma delas tem presença marcante (se bem que a mãe de Ignácio é importante para alavancar uma das reviravoltas). Talvez por isso esse seja seu trabalho mais sombrio, mais duro e amargo. Mas, mesmo assim, não é um filme frio, nem distante. Pelo contrário: toda a emoção a flor da pele (e as cores), a maior característica do Almodóvar, está lá, e conseguimos, mais uma vez, notar a relação de afeto que ele tem com seu próprio cinema. Certa vez, enquanto Almodóvar distribuía Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos mundo a fora, ele se encontrou com Billy Wilder, que lhe deu a seguinte dica: jamais caia na tentação de fazer um filme em Hollywood. E ninguém conhece mais a indústria do cinema do que o Billy Wilder. Eu realmente espero que Almodóvar continue seguindo essa dica, porque ir ao cinema e ouvir diálogos em espanhol é muito bom, mas estou certo de que, se algum dia ele vir a fazer algum filme em Hollywood, não vai ser diferente do que é agora. Ele vai seguir fazendo com toda a sua paixão. “Afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão”. Palavras do mal educado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BOOH! OS MELHORES FILMES DE TERROR DA HISTÓRIA

O David Naughton em Um Lobisomem Americano em Londres se transformando no bicho do título, num show de maquiagem

A Fabrícia pediu pra que eu comentasse essa lista da Entertainment Weekly sobre os 20 filmes mais assustadores de todos os tempos. Ok, o título “de todos os tempos” me incomoda, sempre prefiro listas menos abrangentes, tipo “dos últimos X anos”. Mas até que esse apanhado da EW ta justo. Fãs dos filmes de terror, concordam? Todos os maiores clássicos estão aqui. Vejam os dez primeiros:

1- O Iluminado; 2- O Exorcista; 3- O Massacre da Serra Elétrica; 4- O Silêncio dos Inocentes; 5- Tubarão; 6- O Chamado; 7- Halloween; 8- Psicose; 9- Seven; 10- O Bebê de Rosemary

Acho que eu só mudaria a ordem (veja a lista completa aqui). Por exemplo, como assim, O Bebê de Rosemary atrás de O Chamado, Halloween e Seven? Pode uma coisa dessas? Sou suspeito pra falar, porque “Rosemary” não é só o meu filme de terror favorito (meio pau a pau com O Iluminado), como também um dos que mais gosto, assim, de todos os gêneros. A construção de tensão e de clima no filme é invejável, com a protagonista não tendo pra onde fugir, mesmo morando no centro de Nova York: totalmente apavorante. Eu o colocaria em primeiro ou segundo lugar, mas provavelmente pouca gente concorda comigo. A briga maior, que eu sempre vejo por aí, é entre O Iluminado e O Exorcista mesmo. A lista prefere o primeiro, e eu também. O Exorcista é realmente muito assustador, e, embora eu aprecie mais o clima de O Iluminado, gosto bastante dele. Sei que estou correndo o risco de ser apedrejado por isso, mas eu vou ter que concordar com os críticos americanos que consideram o filme do William Friedkin misógino. Ah, gente, não dá pra negar: a possessão da garota pelo demônio representa a fase da puberdade, da perda da inocência. Ta cheio de nojos a essa fase feminina, como mostrar a garota se masturbando com um crucifixo. E os padres (homens) vão até ela para expulsar o demônio, ou, humm, para voltá-la àquela inocência pura a qual as mulheres nunca deveriam sair. Eu li o livro do William Peter Blatty que o filme se baseou, e ele é igualmente misógino, mas o William Friedkin reforçou ainda mais a ideia. Claro que se considerarmos O Exorcista como um filme de terror de puro entretenimento (sem deixar de ser arte), feito para assustar, pô, ele super cumpre seu objetivo. Mas tem esse outro lado... Em breve eu tomo coragem de escrever um texto sobre ele analisando melhor esse ponto.

Sobre O Massacre da Serra Elétrica, eu nunca vi inteiro. Vi uns pedaços soltos e achei o clima bem original, bem estranho e assustador. Assim que possível confiro ele todinho. E fiquei feliz de terem incluído O Silêncio dos Inocentes em quarto lugar. Um batalhão de críticos não consideram “Silêncio” um filme de terror, porque eles não conseguem levar o gênero a sério, e amam esse filme, logo usam expressões como “drama psicológico”. Balela. É terror sim, e sem medo de ser, do mais puro e inteligente. Se bem que aí podemos entrar em outra questão: até que ponto a linha que divide o suspense do terror existe? Porque, sinceramente, eu concordo com a inclusão de Psicose na lista (só que, de novo, numa posição mais privilegiada), mas sei que um monte de gente reclama que “ah, não é terror, é suspense...”. Bom, pra mim é um suspense com toques de terror, assim como outro do Hitchcock, Os Pássaros. Opa, descobri um que está faltando na lista. Ah, e se incluíram O Chamado (que eu gosto), porque não O Sexto Sentido, ou O Nevoeiro? Outro filme que gostei de ver aí foi Enigma do Outro Mundo (14ª posição), provavelmente meu favorito do John Carpenter. Já viram? Mas, bem, agora que to pensando, faltou A Mosca, do Cronenberg. É um filme bem cultuado (e muito bom). Só que, vem cá, Evil Dead (15º lugar)? Eu sei, eu sei, é um marco do trash, é um cult, foi feito com uma ninharia de orçamento, não dá pra levar a sério, etc etc. Mas colocá-lo na frente de Carrie (16º), A Noite dos Mortos Vivos (17º) e A Profecia (18º)? Tudo bem que em uma outra lista da Entertainment Weekly, dos 500 melhores filmes de todos os tempos (desafio alguém a criar um troço mais abrangente), Evil Dead foi o filme de terror mais bem colocado, na frente de O Iluminado (!). Bizonho... Carrie sem comentários, pra mim o filme merece estar em qualquer lista só por conter a cena que mais me faz gritar com a tela (àquela do coroamento, do pré-banho de sangue). Ninguém sabe usar a câmera lenta a favor do suspense como o De Palma (vide Os Intocáveis e o carrinho do bebê caindo da escada). E é incrivelmente superior ao romance do Stephen King. A Profecia não acho nenhuma maravilha, mas até gosto. Tem umas cenas antológicas, e assusta, então ta OK. Ah, e eu sou muito estranho por nunca nem ter ouvido falar de Henry: Portrait of a Serial Killer (20ª posição)? Agora, Um Lobisomem Americano em Londres (19ª posição), gente, é demais. Adoro esse filme. É uma das melhores misturas de terror e comédia já feitas, e ele ganha muitos pontos por se levar o mínimo a sério possível. É divertidíssimo e constantemente descrito como o melhor filme sobre lobisomens. Ouvi uma notícia de que ele vai ganhar um remake, agora, me digam uma coisa: existe alguma chance da refilmagem incluir a cena do cinema pornô? Não, né? E aquela em que o David Naughton anda por Londres pelado? Ou qualquer das aparições do amigo morto? É, eu acho que não. Fiquem com o original, que é o que há em matéria de humor negro. E, eu sei, o Halloween já passou, mas nunca é tarde pra rever algum desses filmes. Eu jamais serei uma pessoa plenamente realizada sem terminar um texto sobre filmes de terror com essa frase: bons sonhos, booooohhhh (onomatopéia referente aos fantasmas – ah, me deixem ser feliz).

sábado, 7 de novembro de 2009

BEM-VINDO À CASA DE BONECAS – “Pessoas especiais” não são bem-vindas

Finalmente consegui ver Bem-Vindo à Casa de Bonecas (1995), graças a um amigo, que caridosamente baixou o filme pra mim. Se você não viu, veja! Mas não espere encontra-lo numa locadora mais próxima, porque ele não está disponível em DVD no Brasil. E nem vai estar, suponho. É um desses filmes que algum desinformado aluga por achar a capa bonitinha ou a sinopse interessante, mas volta alguns minutos depois à locadora pra reclamar, tipo “que coisa é essa?!”. Não tenho certeza, mas devem ter algumas pesquisas sobre o número de pessoas que vão conferir algum filme do Todd Solondz (do estranho e excelente "Felicidade") e saem na metade da sessão. “Bem-Vindo” conta a história de uma garota, Dawn, que está na sétima série e sofre na escola por ser feia. Vítima de insultos e humilhações, sua vida dentro de casa não é nada melhor. Eu diria até pior, porque, vejam bem, se alguém te trata mal na escola, você logo corre, procurando refugio, no seu lar, né? Mas como, se sua família te trata da mesma forma? Ao contrário do desinformado que alugou o filme (se ele existisse nas locadoras, mas, hipoteticamente falando) e logo devolveu, chocado, pensou, aqui não teremos um happy end. Não espere uma história de superação, onde, no fim, todos vão acreditar que a beleza física não conta em nada... Onde todos formam um círculo e cantam uma canção de natal antes de se aconchegarem na lareira e abrirem os presentes (?). “Bem-Vindo” fala da realidade. Eu sou fiel à lei de que o cinema não precisa retratar a realidade do jeito que ela é. Na verdade, acho que o cinema serve muito bem pra ser uma fuga da realidade, pra gente se abster dos problemas por umas duas horas... Se é isso que você procura, vá de algum musical. Aqui, a realidade é o mais real possível. Ou seja, um inferno.

Se bem que o Todd Solondz, também roteirista, faz um retrato da adolescência e da vida fútil dos subúrbios de uma maneira até meio caricata. Só que sem deixar de ser verdadeira, real. Tem quem ache exagerado demais a visão dele das crueldades da adolescência, que ele coloca tudo que há de ruim no mundo nas costas de Dawn. Mas foi essa a intenção. Fazer uma caricatura da realidade, que não deixa de ser real, oras. O melhor exemplo disso é o ambiente da casa da protagonista. Sua irmã mais nova, de uns 7 anos, é o que todo mundo chama de “ooohhh, que linda!”. Olhos azuis, um rosto angelical, magra, lourinha, etc. E ela vive andando pela casa vestida de bailarina. Mais caricatural impossível. Enquanto a mãe da família baba pela pequena, a mimando em tudo, ela trata mal a pobre Dawn, que é chamada pelos colegas da escola de “cara de cavalo”. A irmãzinha, tão novinha, logo nota que ela tem vantagem sobre a irmã mais velha, e não perde a chance de usar isso contra Dawn. Essa, por sua vez, olha pra irmã, sempre sendo elogiada por todos, e logo conclui: como você tem sorte. Alguma coisa na cultura de Dawn a ensinou que nascer bonita é ser muito sortuda. E é mesmo. Em dado momento, quando está sendo agredida por uma valentona da escola, Dawn pergunta porque ela a trata mal, no que a agressora responde: “porque você é feia”. Numa das cenas mais cruéis, a mãe reparte um pedaço de bolo para toda a família, mas deixa Dawn sem comer. No final, o seu pedaço do bolo que ela não teve a chance de experimentar é repartido pela mãe aos dois irmãos. Um é inteligente, a outra, bonita. E Dawn, por causa da má-sorte de ter nascido daquele jeito, fica sem chocolate.

Mas tudo isso é tratado da forma mais diferente do convencional possível, e “Bem-Vindo” não é, em absoluto, um melodrama feito sob encomenda pra se chorar do início ao fim. Quer dizer, dá um aperto enorme no coração em várias horas, e é tudo cruel demais. Se a gente quase não aguenta assistir a tanta hostilidade, imaginem pra personagem, como não é. Mas o que mais gosto no filme é que o Todd Solondz, ao invés de fazer daqueles que maltratam a Dawn malvados e ponto, ele, na verdade, dá voz a esses personagens. Nós conhecemos a história por trás de um dos meninos mais detestáveis da escola de Dawn, que, inclusive, ameaça estupra-la. Vemos que ele sofre por não ser popular, por também ser “diferente”, inclusive não sendo convidado para as festinhas do colégio. Assim, ele desconta tudo naqueles que estão por baixo, por ser agredido por quem está por cima. Mas só enquanto estão todos vendo. Mais tarde, quando ele e Dawn, os dois excluídos, se encontram, fora da escola, eles acabam se tornando amigos. Até se beijam. Mas, ao fim do encontro, o garoto avisa: “se você contar o que aconteceu aqui pra alguém, eu te estupro, e dessa vez falo sério”. Talvez a parte mais tocante acontece quando Dawn sonha que todos ao seu redor dizem que a amam. A gente até tenta ter alguma esperança, mas no fundo sabemos que isso não é bem o estilo do Todd Solondz. Aliás, o diretor norte-americano já é uma figura e tanto. Começou fazendo produções independentes totalmente fora do padrão, como essa, e, depois de se tornar mais ou menos famoso, continua fazendo produções independentes fora do padrão. É ou não é de tirar o chapéu? Mas ele tem uma visão pessimista do mundo, e trata disso de uma forma ácida, às vezes irônica, e até com uma pitada de humor. Mas bem pouco, e um humor diferente. A gente definitivamente não consegue rir da história de Dawn. É um filme seco, cru, mas que mexe com a gente, mesmo que seja pra nos deixar pra baixo. Cumpre seu objetivo. A protagonista não é apenas uma coitadinha, ela está longe de ser eticamente perfeita. Na realidade, de tanto sofrer insultos, ela passa a ofender a única pessoa que consegue, seu único amigo, que está mais ou menos na mesma situação que ela. Em outro momento, Dawn se apaixona por um cara mais velho e super popular que começa a tocar guitarra na banda do irmão nerd, em troca de aulas de computação. Mesmo vivendo num mundo completamente hostil, Dawn ainda é uma sonhadora. Ela pede informações ao irmão sobre esse cara, e, de mal grado, ele lhe diz que o tal guitarrista sai com qualquer garota, desde que esta esteja disposta a fazer tudo que ele lhe pedir. E a Dawn: “aquilo das relações sexuais?”. O lugar que Dawn mais gosta de ficar, e que mais tarde é destruído pela mãe para que aconteça uma festa de casamento, é o seu clube no jardim, uma espécie de casa na árvore. Dawn o define como “clube das pessoas especiais”, e quando vai perguntar ao cara que ela se apaixonou se ele quer ser vice-presidente do clube, ele diz: “pessoas especiais? Dawn, você sabe o que isso significa? Pessoas especiais são a mesma coisa que retardados”. Se você curte os anti-Sessão da Tarde, bem-vindo à casa de bonecas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FALE COM ELA – Momentos que falam

Leia a primeira crônica que escrevi sobre Fale com Ela, há um ano, aqui.

Pra muitos, Almodóvar vem, com o passar dos anos, perdendo as maiores características que o fizeram famoso. O pessoal que prefere o cineasta de começo de carreira, onde ele se dedicava mais à comédia e ao kitsch, normalmente não é lá muito fã de filmes como Fale com Ela, de 2002. Bom, eu já penso diferente. Pra mim Almodóvar amadureceu com o tempo, e está, agora, no ponto máximo de sua carreira. Suas últimas cinco obras (consecutivas!) são, na minha opinião, obras-primas: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Má Educação e Volver. Discordo que Almodóvar deixou de lado as situações extremamente bizarras dos seus primeiros trabalhos, nesses últimos filmes. Elas ainda estão presentes, assim como outras de suas marcas pessoais, mas o fato é que Almodóvar amadureceu. Além disso, agora ele está investindo mais no melodrama, gênero que uma porção de diretores tenta fugir ao máximo, com medo de cair na pieguice. Almodóvar não tem medo de ser sentimental, porque, de fato, ele tem controle sobre nossas emoções, sobre as situações impostas por seus roteiros altamente originais. Talvez um dos únicos autores ainda em atividade que se dedicam muito mais ao sentimento que uma imagem ou uma cena traz do que ao choque, que pode levar às lágrimas fáceis. Não existe lágrima num filme do Almodóvar que não seja necessária. Nem dos personagens e nem nossas.

Na história, um enfermeiro cuida de uma bailarina em coma por quatro anos, segundo ele, os melhores de sua vida. No começo, pela dedicação do homem, pensamos que os dois deviam ter uma relação muito próxima, muito íntima. Mas estamos enganados. Num flashback que mostra a vida de ambos antes do acidente que a fez parar numa cama de hospital, descobrimos que os dois mal se conheciam. A casa dele ficava em frente à escola onde ela fazia aulas de balé, e, sendo solitário e passando horas de seu dia na janela, ele se apaixona por aquela desconhecida. Depois de um ou dois encontros meio desastrosos, ela entra em coma. Ele, que já havia feito cursos de enfermagem para cuidar da mãe doente, passa a se dedicar àquela moça. Além dos cuidados básicos, ele também faz algo inesperado: fala com ela. Conta-lhe o enredo de um filme que viu, de uma peça que lhe emocionou, conversa com ela da forma mais natural possível porque, como o próprio personagem diz, como podemos ter certeza de que ela não está ouvindo? E essa é só uma das histórias. Na outra, um jornalista começa a namorar uma toureira, que, num dia em que tem que tomar uma difícil decisão para sua vida pessoal, acaba sofrendo um acidente com o touro, que também a deixa em coma. Agora os dois homens começam a conviver juntos. Quantos filmes ruins Hollywood consegue fazer com uma história dessas?

E Almodóvar, sendo o mais sensível diretor em atividade, sabe o que fazer. Existem momentos em Fale com Ela de uma simplicidade quase banal, que em outras situações nós nem notaríamos, que dirá nos emocionaríamos. Mas Almodóvar adora fazer desses momentos simples algo maior, cheio de poesia. É o caso da troca de roupas da toureira, ou de outra troca de roupas: àquela em que a câmera focaliza por cima a moça em coma, enquanto os enfermeiros a trocam. Almodóvar sabe o que filmar, a hora de filmar, como filmar, qual música colocar ao fundo, se deve ser em câmera lenta ou não, além de como os atores devem reagir a algo. Ele sabe como construir momentos de uma emoção tão verdadeira, mas tão verdadeira, raramente vista no cinemão, que nós perdemos qualquer argumentação. Fale com Ela é, acima de qualquer outro do Almodóvar, um filme de momentos. A mais antológica cena é aquela em que vemos um filme mudo (ele também gosta de usar a metalinguagem de filmes dentro de filmes) onde um homem toma uma poção e encolhe, encolhe, encolhe até... adentrar dentro da vagina de sua amada. Pra nunca mais sair. Começa pelo fato de que Almodóvar não tem nenhum receio de simplesmente dar pausa na trama central pra contar outra trama, que dura quase dez minutos. Ele tem controle sobre seu filme, e não tem medo de que o ritmo do mesmo pise na maionese. Nós deixamos o envolvimento com aqueles personagens que já estamos apegados para acompanhar essa pequena história que, por sinal, faz completo sentido com o enredo principal. Em quantos outros filmes podemos ver um homem entrando dentro de uma vagina gigante? Melhor: em quantos filmes uma cena dessas é poética, e não chocante, impactante? É isso que faz de Almodóvar especial. Ele é único.


Não dá pra negar que grande parte de seus filmes mostram muito mais personagens femininos do que masculinos. Almodóvar não nega que se interessa e que gosta muito mais de filmar as mulheres e suas tramas de solidão, incertezas ou neuroses. Eu demorei um pouquinho pra notar que existe algo em Almodóvar muito mais complexo do que simplesmente uma paixão pelo “universo feminino”. É mais do que isso. Quando vi Tudo Sobre Minha Mãe pela primeira vez, foi paixão à primeira vista, e ficou mais do que claro pra mim de que ali havia uma das maiores homenagens às mulheres já concebidas pelo cinema. Mas tinha mais... Os personagens homossexuais, homens presos em corpos (que sonham em mudar) que não lhes parecem apropriados: aquilo me encucou. Talvez eu só tenha notado essa fusão dos gêneros depois de conferir Fale com Ela. É exatamente isso que Almodóvar parece querer dizer. Apesar de sua paixão assumida pela mulheres, aqui ele mostra os homens de uma forma pouco vista no cinema. Um dos personagens masculinos chora sem dó quando vê um belo número de dança, e depois vamos descobrir que é por ele não poder compartilhar esses momentos com a mulher que ama. Sem contar a questão mais social, já que uma das personagens femininas exerce uma profissão normalmente exercida por homens. Ela é toureira. Fica claro pra mim que Almodóvar quer confundir os sexos, anular as características que o cinemão impôs a cada um dos dois. Isso sem falar no personagem do Javier Cámara, que é, de longe, o mais complexo deles (e o favorito do Almodóvar, de todos os seus filmes, contando apenas os masculinos). Depois de viver anos cuidando da mãe, ele acaba sendo um pouco assexuado. É uma criança inocente, sem maldade. Mas aí ele se apaixona por àquela moça que vê pela janela, e as coisas se complicam, porque uma criança nunca está pronta para um relacionamento adulto. O próprio Almodóvar o definiu, entre outras coisas (já que seus personagens não podem, de maneira nenhuma, serem redimidos a apenas uma expressão), como “psicopata doce”. Ele não tem noção de seus atos, em alguns momentos, e se leva pela emoção. Por isso nós não julgamos suas ações finais. Nós seguimos gostando dele, torcendo por ele. Ninguém, até aqui, havia conseguido fazer um personagem que comete atos como estes, e que, no fim, não cai no nosso conceito. Nós o compreendemos, porque Almodóvar nos mostra seus motivos, nos mostra seu passado, abre espaço em seu psicológico para que o entendamos.

Fale com Ela é uma história de amor. Em todos os sentidos. É uma história de amor entre seus quatro personagens centrais, mas é também uma história de amor entre Almodóvar e seu cinema. Almodóvar ama sua trama, ama seus personagens e suas situações. Ele ama o que faz. Isso fica claro no cuidado com que focaliza cada um dos momentos, como já disse acima, e também na forma como faz sua trama caminhar. Acostumados que estamos com o cinema da expectativa, que nos prepara desde a primeira cena para as reviravoltas finais (às vezes desde o marketing, com frases do tipo “não revele o final”), nos assustamos com o que Almodóvar cria aqui (e não só aqui, já que todos os seus últimos filmes contém essa característica). A história de Fale com Ela (e de Má Educação, mas falo dele mais pra frente) apresenta uma das maiores surpresas que eu já tive o prazer de presenciar em um filme. Só que, o mais espantoso, é que as reviravoltas da trama soam de forma incrivelmente natural. O roteiro vai percorrendo, nós vamos nos envolvendo com os personagens, com as situações, nos emocionando, e, de repente, sem avisar, sem dar margem para uma preparação, ele parte pra outra rota. Demoramos um pouquinho pra nos recompormos, mesmo que essa surpresa não apareça de forma chocante. E ta aí outro ponto. Fale com Ela trata de temas pesados, fortes mesmo. Mas, com a maestria de um gênio, esses temas não aparecem saltados à tela. Nenhum deles é maior do que a história. Nada é maior no filme. Tudo anda em harmonia, em equilíbrio. Da complexidade dos personagens às reviravoltas, tudo é natural, cheio de lirismo. É cinema de amor, feito com cuidado, como um pintor que se dedica a um quadro, como um compositor que gasta horas compondo uma canção. É uma relação de amor de Almodóvar com seu cinema e de nós com o cinema de Almodóvar.

E, se vocês permitem que eu use apenas uma palavra para definir tal obra-prima, diria que Fale com Ela é um filme sobre a comunicação. Não é engraçado como ligamos essa palavrinha à boca e ao ouvido? Ao falar e ao escutar? Mas a comunicação de Fale com Ela não está ligada ao óbvio. Ele, na verdade, quer nos dizer que existem outras formas de se comunicar. Não apenas na fala. Às vezes num som, numa música. Aqui Almodóvar apresenta dois momentos que contam com importante participação da música brasileira: um deles mostra um show de Caetano Veloso, com uma performance verdadeiramente sincera, e em outro, uma canção do Tom Jobim e do Vinicius de Moraes, cantada pela Elis Regina, é tocada ao fundo de uma tourada (Almodóvar faz até das touradas um troço belo, vê se pode?). Há também a comunicação pela dança, pelos movimentos do corpo. O filme abre com duas bailarinas num palco, de olhos fechados, que usam toda a expressão que seu corpo lhes permite para transmitir as sensações, os sentimentos. Um homem, também no palco, tira várias cadeiras da frente das mulheres, pra que elas não se choquem contra esses obstáculos enquanto caminham com seus olhos cerrados. Além de uma metáfora à própria trama do filme, essa representação é também o modo de Almodóvar nos mostrar outras formas de expressão. E o que dizer da homenagem ao cinema mudo, que transmite emoções sem precisar da fala? O maior exemplo dessa mensagem da comunicação é o da própria situação dos personagens. As duas mulheres estão em coma, e, claro, não podem falar. Só que, mesmo não podendo utilizar as falas, elas causam naqueles homens grandiosas sensações. Ambos se emocionam com elas, nós nos emocionamos com elas, e as duas permanecem sem falar. O verbo presente no título do filme não está se referindo apenas ao ato simples de abrir a boca e soltar palavras. É um falar diferenciado, o falar pelas emoções. Coisa que Almodóvar sabe melhor do que ninguém. E está nos ensinando.